segunda-feira, 7 de outubro de 2013

João gostava de poesia. Aprendeu com as dores, as cores, os amores, os sabores. Depois aprendeu a rimar o pão com a solidão e aprendeu, precocemente, a se alimentar da própria carne, porque João é um nome por si só extremamente poético, achava. João sabia, de cor de salteado, todas as metáforas usadas por Álvares de Azevedo, Gullar, Camões, Quintana, Vinícius, um pouco de Clarice e Drummond. Ah, Drummond, seu diabo. As questões de literatura, aquelas mais difíceis da prova, João acertava sem nem titubear.

"amor
é fogo que arde sem se ver
é ferida que dói e não se sente”

João apertou todas as cicatrizes da vida, e viu um sangue brotar do que deveria ser só uma espalmada ilusão. Não tem jeito. João queria se apaixonar por um vaso grego, voltar pro pombal. A maior parte das poesias que João já leu na vida falava sobre um amor bonito, sublime, puro, por vezes sofrido, mas tão distante. João deixou a barba crescer, passou a pentear o cabelo pra trás, usou roupa bacana e disse pra si mesmo: “Eu ainda vou amar alguém assim.” Viveu os anos 2000 bestializado. Escreveu no seu diário: 01/2000 - “Gente passou a comer gente, sem escovar os dentes. E o coração.”

Na pré-escola, João achava a professora muito bonita. Certa vez, ela disse pra João: Vai, João, ser gente na vida.
João passou a escrever bilhetes que nunca mostrava pra ninguém. Nem pra melhor amiga, Clarice.
Talvez se Clarice tivesse lido, anos mais tarde, ela teria entendido o motivo de João não gostar que ela falasse dos namorados.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

Quando entrou no ensino médio, João conheceu Laura, uma garota dos cabelos cacheados, pretos e curtos que faria Shakespeare desaprender a sonetar e cortar o liso pálido de Julieta. Via Laura de longe, com seus livros e seus óculos engraçados. Nunca soube o nome dela. Mas gostava de chamá-la de Laura, e motivo ninguém nunca vai saber. Mas João acreditava que era Laura, e porque acreditava, Laura existia.
João ia às aulas que Laura frequentava e sentava sempre três cadeiras atrás, tentava desenhar o rosto dela na cadeira e dava não mais que quatro suspiros, com medo de Laura, por azar, notar.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

No meio da rua, quando estava bêbado e sem um tostão furado, uma prostituta passou usando um vestido vermelho escarlate. Ela disse, com uma voz ofegante:
- Ei, benzinho, tem fogo?
- Fogo é amor que dói e não se vê.
- Camões está meio embaralhado aí, benzinho.
- Ei, você conhece, Camões?
- Tem fogo ou não tem, doçura?
João não respondeu e ela foi embora, rebolando tristemente. Olhos tristes, cabisbaixos, gelados. Queria que ela tivesse ficado. Queria que ela tivesse falando “benzinho” mais uma vez. João não fumava. Mas desde esse dia, andava com um isqueiro no bolso.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

O amigo de João disse que estava pegando uma loira gostosa. João respondeu: “Cara, isso é jeito de falar! Quero ver quando você começar a amar de verdade”. O amigo de João deu três tapas na mesa, pagou o uísque de todo mundo, deu um último gole e disse: “João, foi bom te ver. Agora tenho que encontrar a minha gata.” João nunca tinha visto aquele idiota tão feliz.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

João acabou traído na terceira namorada. Disse pra si mesmo: “Não, eu nunca amei essa vagabunda. Não pode ser amor, não pode!” Apagou todas as fotos do computador, num apertar de teclas catastroficamente bruto, e lembrou-se de amar baixinho e disse, chorando: Merda. Mas eu ainda vou amar alguém assim.

João, descrente, olhava para todos os casais na rua e se perguntava se já tinham filhos, quantas brigas tiveram, como se conheceram, se eram amantes ou namorados, se a família aceitava ou era namorico escondido.
Gente besta. Gente jovem besta. Se apaixona pela primeira que vê na rua.
[Passou a garçonete. João olhou pras pernas dela.]
Gente que não sabe amar.

Mas João esperava pela pessoa certa. João esperava pelo amor de Vinícius. Esperava fazer a besteira de tatuar o nome de alguém sem precisar de tinta. João dizia: Amor não pode ser isso. Não pode ser algo tão banal. O que foi que aconteceu com a poesia, o lirismo, o romantismo, o mundo? Onde eu me perdi?
Do que valem as notas de literatura?
Do que valem as vanguardas europeias?
Do que vale o amor de pedestal?
Do que vale a musa que morre no céu?
O que significa amar o que não existe?
João não sabia responder. Que se dane a estrutura poética e a biografia boêmia de sabe Deus quem, professora filha da mãe. Poesia nunca fez sentido. Nunca valeu uma nota.

João sorriu. E, ironicamente, os amigos de João hoje dizem: “João morreu do coração.”
Morreu enfartado. Jurando que nunca amou ninguém em sua melancólica e sem graça existência, sem saber que amor era justamente o seu próprio dia a dia. Segundos. Milésimos. João amou o tempo inteiro.
Pobre coitado.

E agora, João?