terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2000 e sempre

Passei a virada do ano embaixo do chuveiro, agachado, chorando, minúsculo, invisível. Adolescentismo babaca. Senti, pela primeira vez, a dor da dor. Blablabla estou sofrendo, blablabla estou completamente sozinho. Pela primeira vez, acho, senti o que isso significava de verdade. A pressão nos meus órgãos era quase insuportável. Achei que fosse morrer ou então descer pelo ralo. Sem nenhum remédio, sem nenhuma arma, só a tristeza de Renato Russo, quase cocaína. Achei que alguma coisa em mim fosse explodir e sujar a parede. Pensei em ligar pro hospital, mas era mais digno não encher o saco dos enfermeiros com esse tipo de bobagem, até porque ser eu, ser apenas eu, ser completamente eu, foi escolha minha. E uma escolha terrível, diga-se de passagem. Eu poderia ter pulado do escorregador quando mamãe avisou que era perigoso. Mas eu sempre gostei de precipícios maiores, porque nem sei a minha própria profundidade. Eu nem sequer estava no escorregador, aliás. Estava embaixo dele. Agachado, chorando, minúsculo, invisível. Mas claro, com a dignidade de não estar sem roupa. Estava, naquela fatídica virada de ano, embaixo do escorregador, tremendo de medo daquelas pessoas, daqueles sons, daqueles porcos sinistros com maçãs enfiadas na boca. O balanço na casa do meu tio fazia um barulho horrível quando as outras crianças se balançavam. Era realmente terrível. Pior do que os fogos de artifício. Mamãe veio me tirar pra participar da roda de oração e eu me debati no chão, gritei com ela, disse que tudo aquilo era besteira, até que ela quase entortou meu braço e acho que nunca vi os seus olhos tão tristes. Eu era um porre, essa que é a verdade. Até que meu tio, levemente bêbado, foi até lá e me agarrou pelo braço quando eu já tinha me largado de mamãe e planejava correr. Ele disse, enquanto eu permanecia mudo e estático, olhando bem no fundo dos meus olhos:
- Você faz parte dessa família? Me responda se você faz parte dessa família. Se você faz parte dessa família, vai participar dessa oração.
Meu tio sempre cuspia enquanto falava. Eu não sabia o que responder.
Talvez eu não fizesse parte daquela família. Talvez eu fosse só um projeto de gente que se achava adulto demais, talvez mais adulto que meu próprio tio. Eu era o projeto de gente, medroso, que detestava o ano novo porque detestara até então todos os anos de vida que passou. Os momentos mais felizes eu nunca tinha comemorado com ninguém. Eu nunca comemorei anos. Sempre comemorei segundos. Segundos novos. E eu não via sentido em me alegrar por causa de um ano novo. 365 dias era tempo demais. Tempo que incluía os momentos em que senti falta do meu pai, os momentos em que não suportava a carência excessiva da minha mãe, os momentos em que eu ficava agachado embaixo do escorregador com medo de toda aquela gente perceber que eu existia. Com medo do barulho do balanço. Com medo daquela música estranha e com vergonha do meu tio que, por ser sempre tão pacato e amoroso comigo, por sempre dizer que eu era seu sobrinho favorito, eu desconfiava que já não gostasse mais tanto de mim assim.
Aquelas pessoas, aquelas que comemoram o ano novo com muita cerveja e barulho desnecessário, deveriam ser muito tristes. Tristes sim, por se alegrarem tanto em ver um ano sendo jogado fora. Eu sei que, no fundo, ou melhor, na teoria, estavam agradecendo pelas felicidades e dando adeus aos infortúnios que passaram, mas pra mim, não passavam de babacas com o nome sujo na praça. Eu só não sabia disso naquela época. A inocência eram uma coisa que me deixava louco.
Meus segundos prediletos aconteceram
Quando mamãe fazia brigadeiro pra mim e sempre comíamos juntos.
Quando comprava um Mc Lanche Feliz todas às sextas-feiras quando ia ao centro da cidade. 
Quando me parabenizava  por conjugar todos os verbos. 
Quando tentou me colocar numa creche e eu esperneei tanto que ela teve que me levar de volta pra casa.
Quando viajávamos e ela me deixava comer um salgado com coca-cola no café da manhã.
Quando íamos à praia e ela imitava todos os bichos que eu pedia. Quando fazíamos bolos de areia e ela sempre deixava o meu ficar mais bonito. 
Quando tomávamos banhos de piscina e eu ficava admirado com a capacidade dela de não afundar. Sim, mamãe não afundava. Por mais que mergulhasse. Era uma coisa engraçada apertar a barriga dela com toda a força do mundo e ver que mamãe era quase uma boia.
Quando quis imitá-la e boiamos juntos no mar, até que a correnteza nos arrastou e eu vi que não encostava mais o pé no chão. Mamãe se desesperou. As ondas naquele manhã estavam enormes. Nade, vá, nade, nade mais rápido, pegue impulso. Mamãe me empurrava com toda a força que podia e engolia tanta água que entre uma onda e outra eu via um rosto que mais parecia uma grande bola vermelha perdida. Eu também engoli bastante água. Até que veio uma onda gigantesca e nos empurrou mais pra areia. Mamãe nadava nadava apenas com as pernas. Com uma mão, fechava o nariz. Com a outra, tentava me salvar. Já em segurança, na areia, cansados, ofegantes, eu dei uma gargalhada enorme. O rosto dela estava engraçado. Ela tinha o olhar petrificado. Depois, contando a história para os amigos, mamãe disse: "Eu sabia que ia morrer. Eu tinha certeza que ia morrer. Mas eu só ia morrer quando ele se salvasse". Ela cumpriu a promessa anos mais tarde.
(Mamãe, estou salvo. Mas não estou vivo.)
Ninguém nunca comemorou meus segundos favorito. Talvez, eu gostasse dos fogos de artifício se eles realmente comemorasse algo mais significativo do que a porcaria de um número a mais no calendário. Aquilo tudo não fazia sentido, tio. Era só medo, angústia, pessoas estranhas, barulho. Pessoas tristes e estranhas. Pessoas com calcinhas amarelas e vestidos vermelhos. Pobres e sozinhas. Anos não mudam a gente.
Enfim. Dei uma mão para o meu tio, uma mão para a minha prima, fechei a roda e enquanto todos rezavam, eu permanecia com os olhos bem abertos e com uma ruga terrível na testa. Achava tudo aquilo um saco. E sei que mamãe lamentava tudo aquilo. Lamentava por eu ser daquela maneira. É por isso que, repito, não me senti no direito de ligar para os enfermeiros esta noite porque a escolha de ser eu foi completamente minha. 
Naquela noite, coloquei um lençol na cabeça, fingi que dormia e escutei tudo o que minha mãe conversava com titio. 
"Eu não sei, eu realmente não sei o que foi que deu nele essa noite. To tão chateada... Tão chateada mesmo. Meu resto do ano vai ser horrível, ele não tem consideração comigo. Parece um cachorro raivoso. Ele tava distante, tava frio, onde foi que eu errei com ele? Não quis ficar perto da família... Ele não gosta da família dele? Você acha que ele não gosta? E eu sei que ele tá ouvindo isso. Tá fingindo que tá dormindo, mas tá ouvindo. Ele sabe o quanto me deixa triste sendo grosseiro comigo, ele sabe o quanto eu to triste com ele". Titio disse que era coisa da idade. E que eu ia melhorar com o tempo. Disse também que eu estava dormindo, era impossível estar acordado e tão imóvel assim.
Tio, passei a minha vida inteira escutando o que as pessoas diziam que eu era. Imóvel. Quieto. Não era difícil ser a decepção da minha mãe. E saber disso. 
Nunca fui de pedir desculpas. Mas naquela noite, em especial, queria ter pedido desculpas. Estraguei o ano novo dela. Sempre estragava.
Mas eu só queria que também me entendessem: eu não estava comemorando nada. Eu não queria comemorar nada. Eu lamento não ter dito o quanto eu fiquei feliz por comer as coxinhas de frango que estavam na mesa. Eu lamento não ter pedido socorro ao invés de gritar com você, mãe. Mas eu estava assustado. Eu estava, definitivamente, assustado. Com raiva. Do mundo. Desse mundo babaca do qual eu faço parte. Desculpe, estava crescendo. E crescer, crescer assim, sendo eu, me dá sempre uma vontade incontrolável de gritar com todos aqueles que me amam e dizer: "cês tão ficando doidos? Me deixem em paz. Me deixem em paz, mas não me deixem sozinho".
Anos depois, quando [ironia]comemorava[/ironia] o ano novo junto dos meus avós, sendo chato outra vez, me despedi dos meus amigos quando deu meia-noite e subi para o apartamento sem dizer uma palavra. Vovó apareceu extremamente doída. Passou janeiro inteiro sem falar comigo direito. Era mais que meia-noite, todo mundo me procurava, e eu estava ali. Sozinho. De pijama. No décimo quinto sono.
Naquela altura do campeonato, eu já tinha ouvido falar de um negócio chamado hipocrisia. 
Escapei da oração. Escapei dos abraços hipócritas. Mas magoei minha família. Eu lamento, porque sei que família é um negócio sublime, mas eu sou egoísta, egocêntrico, narcisista e covarde. E eu, eu, sou meu sangue, minha carne, minha vida, minhas pernas, meu ser.
Eu gosto de me satisfazer. E por causa disso, exatamente por causa disso, não desejei um próspero ano novo pra ninguém. Porque a única coisa que eu queria era que aquela música estúpida parasse. E só.
Eu sei, vovó, que a senhora acha que eu não sou grato por tudo o que já fez por mim. Eu nunca disse que sou grato. Na verdade, eu sou. Mas não sei dizer. E sei que a se a senhora for embora também, eu vou sentir sua falta e vou me arrepender por todas as vezes em que te neguei um abraço, do mesmo modo em que até hoje sinto a sobrecarga de carinho que neguei à minha mãe furando a minha carne e formando um vazio gigantesco, maior até do que a própria saudade. 
Agradeço e comemoro, todos os dias, pelas vezes em que você foi na escola falar com a minha professora e dizer que eu não ia apresentar porcaria de trabalho nenhum, porque eu tinha vergonha. 
O alívio que eu sentia cada vez que não precisava falar em público. Falar com ninguém. 
Agradeço e comemoro, sempre, pelas vezes em que você me deixou levar sanduíche no dia da fruta, e ia lá no colégio falar novamente com a professora e explicar que eu comia fruta nenhuma. A professora sempre explicava que alimentação saudável era importante e você dizia: "Se meu neto não quer comer maça, ele não vai comer a droga da maçã".
Eu sempre gostei quando você escrevia bilhetes dizendo que eu não ia participar do banho de piscina porque não gostava de interagir com os outros alunos.
Você me protegeu. O máximo que pôde.
Eu estou vivo, vovó. Mas não estou seguro.
Meus segundos favoritos não existem mais. Ou melhor, não penso mais neles. Não agora.
Todo o meu corpo está doendo. Sinto uma solidão enorme.
É o primeiro ano novo que passo completamente sozinho. A música estúpida está cada vez mais distante. Não tem televisão alguma por aqui. Só os fogos, mas acho que meus ouvidos enrugaram junto com meus dedos.
As mensagens que eu gostaria de receber, não recebi.
Não tem balanço, não tem escorregador, não tem gente de branco, não tem calcinha amarela, não tem o meu tio levemente alcoolizado, não tem amigo, não tem amor, não tem saudade.
Minha avó me chamou pra ver os fogos. Subi, gritei com ela, desci. Ela já não sabe mais o que fazer comigo.
E, pela primeira vez, sinto a dor da minha dor. Não tem mais canto pra que eu fuja. Não tem mais colo que sirva. Não tem mais ninguém. Não tem mais ninguém que queira me dar um abraço pra que eu possa dizer: "ano novo é um saco, eu não vou abraçar ninguém", e voltar pro meu quarto, morto de satisfeito por essa droga de ano já ter acabado. Não tem mais. Não tem mais nada. Sinto a dor da minha tristeza. Meus órgãos estão se afogando. 
Sinto o peso de ter escolhido ser eu. E sinto muito, eu juro que sinto muito.

Feliz 2014.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Lembra de mim quando as coisas não estiverem boas.
Lembra de mim quando pedir às traças para curar os seus machucados e trocar as suas ataduras.
Quando você esquecer de abrir a janela, me culpe.
Quando você economizar sua saliva por cinco minutos. E chorar.
Acho que é uma cena oportuna pra me esquecer. Portanto, não perca tempo.
Tenho uma coisa pra te falar sobre o passado: ele te trai.
Então, lembra de mim antes que
Antes que meus olhos sequem
Antes que minhas mãos tremam
Antes que a minha voz acabe.
Antes que eu desista dos clichês, das rimas pobres e do ouvido intelectual demais.
Antes que eu termine de me destruir. Ainda falta um espaço aqui, eu deixei a melhor parte pra você.
Me guardei no frio pra que a carne não estragasse nesse mormaço eterno da solidão.
Não queima, não congela, mas resfria, e adoece.
Lembra de mim quando a chacina não te comover mais. Eu acho que apaguei do mapa todas as suas pegadas.
E se enciume do seu choro.
Eu acho que já dancei com quase todas as suas mágoas. Elas sabem todos os meus passos.
Pergunte aonde diabos eu me perdi na arte. E se puder, me conte.
O que me intriga, certamente, é dizer pra todo mundo que te superei, contar nos dedos e na alma todas as contusões e fraturas expostas, todas as desistências, as fugas, os remorsos, as linhas, e rir, como quem se orgulha de uma aventura qualquer. Quase morrer, o que me importa, se nunca morri?
E só se morre uma vez. Só se morre uma vez. Eu acho.
Seu amor é um leve desmaio. Fingido.
Acordo, respiro, choro, silencio. Só.
Me contento com os segredos que você desenhou entre as minhas vírgulas.
As minhas pausas que ainda não sei se serão finais. Ou começos.
Isso tudo me dá ânsia de vômito, você sabe. É nojento, é sádico, é cruel, é desumano e inescrupuloso. Eu deveria ter vergonha.
Mas eu só tenho remédios pra dormir. Você quer?
Lembra de mim quando olhar no espelho e só lembrar de disfarçar as olheiras roxas. Sei o quanto você se distraí adocicando os olhos com um colírio especial de lágrimas superficiais.
Seus olhos ficam lindos quando estão vermelhos, inclusive. Parecem banhados em próprio sangue.
Suicídio poético e adulterado.
Sei também do seu sentimento de perda. Mas você nunca vai saber.
Nunca vai saber que me perdeu. Eu prometo.
Porque tenho pra mim que ainda vou voltar todas as vezes em que você quiser… Sei lá, abrir as janelas, talvez. Chorar comigo, também. Observar a chuva e gostar de ser triste, por achar bonito que o céu nos mande pro inferno.
E eu sei que somos pulmões enormes tragando toda a fumaça do mundo.
E pulmões não se reconstituem tão fácil assim. Morrem antes mesmo de saber que estão matando.
Lembra de mim quando quiser, aliás.
As coisas nunca mais foram tão boas, tão simples, tão bonitas assim. Você sabe.
Eu estou feliz.
Você está feliz.
E nem eu e nem você sabemos o que é felicidade ainda.
Mas se quer saber, machuca. Não, você não quer saber.
Não tenho ninguém pra ligar no fim do dia e dizer:
“Droga. Volta, que eu to com saudade. Me perdoa, por favor, me perdoa, me perdoa.”
Traduzindo: nada. Deixa pra lá.
Lembra de mim. Só isso.
Antes que seja tarde demais, e o amor seja tédio.
Antes que surja a primeira estrela no céu
E a última dor na Terra.
Só lembra de mim.
Pro mapa-múndi não ser tão grande.
E pras estradas ainda fazerem sentido.
E se quiser voltar, volta.
Talvez eu deixe um bilhete pra você.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Zumbi.

Eu juro que só queria escutar o barulho que o seu sangue faria. Uma, duas, três vezes. Ou quatro, no máximo.
Mas sua respiração apodrece dentro das minhas dores. Dentro do meu corpo cheio de ácido e órgãos afogados. Eu te mato, te venço, te enfio dentro de um contrabando e te como a liberdade, mas o seu cadáver, ou o seu exoesqueleto, ou o seu metal barato e enferrujado, é o que contamina as águas da minha tristeza. Minhas lágrimas de vitória são podres, inaproveitáveis. Te esquecer foi um ato de extrema aflição, mas nada me construiu mais do que as minhas antigas derrotas. Minha base é inteira construída em cima de um cemitério de cicatrizes. Antigas cicatrizes que ainda ardem.
Cicatrizes ridiculamente zumbis.
Sou construído e edificado em cima do meu próprio nada. Deixo a troca de dor como sacrifício à vida e tento, eu juro que tento, não ter tanto medo assim de quem me diz adeus, porque até hoje o que me ficou foram espaços vazios e uma solidão que pede socorro. Nada que eu precise temer. Nada que eu já não conheça. Eu quis reinventar o modo de ser o que sou, porque já não queria mais a fraqueza e os cortes que faço em mim mesmo. Mas o ser humano perde muito por acreditar nos próximos tijolos e numa fachada florida. O terreno fede e é teu.
O futuro, na verdade, é macabro. É triste.
Eu queria ver seus olhos sendo comidos pelos vermes que eu alimentei e batizei como se fossem carne da minha carne. E são. Amor a gente dá às mazelas da gente, porque amor também damos ao que se cria.
Então, te amo como quem ama o próprio câncer. Parte de mim.
Você.
Você é o tumor maligno que mantém meu corpo furado, meu peito fraco, meus pulmões perderem o desejo diante do oxigênio. Você é a doença que me arranca o amor próprio. O espelho me odeia, porque sou tudo aquilo que não se reflete. E você sabe que eu poderia muito bem me livrar de você, de uma só vez.
Eu poderia me curar do câncer.
Desligariam todos os aparelhos, as culpas, as penas, os remorsos, as saudades, os sofrimentos.
Acabariam com você.
E eu morreria.
Então, meu amor, você é a droga do parasita que me mantém respirando.
Trate de me matar direito.
Porque eu preciso de você.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

João gostava de poesia. Aprendeu com as dores, as cores, os amores, os sabores. Depois aprendeu a rimar o pão com a solidão e aprendeu, precocemente, a se alimentar da própria carne, porque João é um nome por si só extremamente poético, achava. João sabia, de cor de salteado, todas as metáforas usadas por Álvares de Azevedo, Gullar, Camões, Quintana, Vinícius, um pouco de Clarice e Drummond. Ah, Drummond, seu diabo. As questões de literatura, aquelas mais difíceis da prova, João acertava sem nem titubear.

"amor
é fogo que arde sem se ver
é ferida que dói e não se sente”

João apertou todas as cicatrizes da vida, e viu um sangue brotar do que deveria ser só uma espalmada ilusão. Não tem jeito. João queria se apaixonar por um vaso grego, voltar pro pombal. A maior parte das poesias que João já leu na vida falava sobre um amor bonito, sublime, puro, por vezes sofrido, mas tão distante. João deixou a barba crescer, passou a pentear o cabelo pra trás, usou roupa bacana e disse pra si mesmo: “Eu ainda vou amar alguém assim.” Viveu os anos 2000 bestializado. Escreveu no seu diário: 01/2000 - “Gente passou a comer gente, sem escovar os dentes. E o coração.”

Na pré-escola, João achava a professora muito bonita. Certa vez, ela disse pra João: Vai, João, ser gente na vida.
João passou a escrever bilhetes que nunca mostrava pra ninguém. Nem pra melhor amiga, Clarice.
Talvez se Clarice tivesse lido, anos mais tarde, ela teria entendido o motivo de João não gostar que ela falasse dos namorados.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

Quando entrou no ensino médio, João conheceu Laura, uma garota dos cabelos cacheados, pretos e curtos que faria Shakespeare desaprender a sonetar e cortar o liso pálido de Julieta. Via Laura de longe, com seus livros e seus óculos engraçados. Nunca soube o nome dela. Mas gostava de chamá-la de Laura, e motivo ninguém nunca vai saber. Mas João acreditava que era Laura, e porque acreditava, Laura existia.
João ia às aulas que Laura frequentava e sentava sempre três cadeiras atrás, tentava desenhar o rosto dela na cadeira e dava não mais que quatro suspiros, com medo de Laura, por azar, notar.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

No meio da rua, quando estava bêbado e sem um tostão furado, uma prostituta passou usando um vestido vermelho escarlate. Ela disse, com uma voz ofegante:
- Ei, benzinho, tem fogo?
- Fogo é amor que dói e não se vê.
- Camões está meio embaralhado aí, benzinho.
- Ei, você conhece, Camões?
- Tem fogo ou não tem, doçura?
João não respondeu e ela foi embora, rebolando tristemente. Olhos tristes, cabisbaixos, gelados. Queria que ela tivesse ficado. Queria que ela tivesse falando “benzinho” mais uma vez. João não fumava. Mas desde esse dia, andava com um isqueiro no bolso.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

O amigo de João disse que estava pegando uma loira gostosa. João respondeu: “Cara, isso é jeito de falar! Quero ver quando você começar a amar de verdade”. O amigo de João deu três tapas na mesa, pagou o uísque de todo mundo, deu um último gole e disse: “João, foi bom te ver. Agora tenho que encontrar a minha gata.” João nunca tinha visto aquele idiota tão feliz.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

João acabou traído na terceira namorada. Disse pra si mesmo: “Não, eu nunca amei essa vagabunda. Não pode ser amor, não pode!” Apagou todas as fotos do computador, num apertar de teclas catastroficamente bruto, e lembrou-se de amar baixinho e disse, chorando: Merda. Mas eu ainda vou amar alguém assim.

João, descrente, olhava para todos os casais na rua e se perguntava se já tinham filhos, quantas brigas tiveram, como se conheceram, se eram amantes ou namorados, se a família aceitava ou era namorico escondido.
Gente besta. Gente jovem besta. Se apaixona pela primeira que vê na rua.
[Passou a garçonete. João olhou pras pernas dela.]
Gente que não sabe amar.

Mas João esperava pela pessoa certa. João esperava pelo amor de Vinícius. Esperava fazer a besteira de tatuar o nome de alguém sem precisar de tinta. João dizia: Amor não pode ser isso. Não pode ser algo tão banal. O que foi que aconteceu com a poesia, o lirismo, o romantismo, o mundo? Onde eu me perdi?
Do que valem as notas de literatura?
Do que valem as vanguardas europeias?
Do que vale o amor de pedestal?
Do que vale a musa que morre no céu?
O que significa amar o que não existe?
João não sabia responder. Que se dane a estrutura poética e a biografia boêmia de sabe Deus quem, professora filha da mãe. Poesia nunca fez sentido. Nunca valeu uma nota.

João sorriu. E, ironicamente, os amigos de João hoje dizem: “João morreu do coração.”
Morreu enfartado. Jurando que nunca amou ninguém em sua melancólica e sem graça existência, sem saber que amor era justamente o seu próprio dia a dia. Segundos. Milésimos. João amou o tempo inteiro.
Pobre coitado.

E agora, João?

sábado, 21 de setembro de 2013


Fica e faz de conta.



Posso colocar a lanterna na testa esta noite. Posso recomeçar a minha coleção de canetas e destruir aquele mostruário de moedas antigas que guardo na gaveta. Posso dizer que li Maquiavel e dormir na metade do livro, posso fingir que o sangue das estrelas é a noite e que eu prefiro a luz do dia. Posso dizer, novamente, que não sei o motivo das pessoas ficarem tão tristes e sentirem tanta pena do que não é da conta delas. Posso engolir minhas virtudes e perguntar o motivo de alguém dizer bom dia no elevador… Tem gente que deveria se importar menos e apertar todos os botões. Eu também poderia começar dizendo que eu tenho muita coisa pra falar e não sei por onde começar. Mas a verdade é que eu sei sim e me guardo no direito de começar te mandando por inferno. Vamos pular essa parte, o que você acha? O inferno é exatamente bem aqui. Que você saiba que eu soprei minhas velas e desejei que o céu fosse um pouco menor do que parecia. Aquela infinitude era sombra pras minhas falhas e pra minha solidão. Falando em velas, meu aniversário é em agosto. Sou leonino, temo que você saiba. Temo ter rasgado e comido a sua alma como eu faria com uma caça. As árvores de casa estão sem poda, mas se eu podasse, Brasília seria um plano passarinho na frente da minha vontade que você pouse aqui. Conservo o porão do meu corpo, com medo de jogar essas tuas tralhas foras. Teu ouro, teu cheiro, tuas ervas, tua barba mesquinha, tua farda que não foi passada naquela manhã. Velho, teus documentos têm cheiro de sangue. Meu cordão umbilical tá no papel, tem nome, tem sobrenome, e sente a sua falta. Vem cá e corta, se você é mesmo homem. Vem cá e me olha, faz de conta que eu sou teu braço direito e esquerdo, que eu sou essa elefantíase sem cura e que eu te cresci e amadureci o coração. Finge, ao menos uma vez na droga dessa tua vida, que você saiu e foi comprar cigarros. Eu quero te dizer que espero que você acorde desse pesadelo molhado e case com a sua garota. Comece tua vida. Mas por favor, começa sem mim. Não vou chegar cedo nesse teu destino infalível, e não quero avisar. Talvez eu nunca chegue e você chore quando escutar um outro choro irritante e exagerado. Ei, velho, admiro você. Admiro mesmo você. Tenho medo que essa admiração acabe quando eu tomar vergonha na cara e seguir os conselhos de quem tem experiência em te abandonar. Ou tinha. Ou fingia que tinha. Tudo tem gosto de cemitério entre a gente, você já percebeu? Espero que todas as minhas cinzas sejam parte do seu misto quente. Que minha tristeza salpique e que a gente se atraia. Quero te dizer que senti orgulho de mim mesmo porque alguma coisa sua ficou embaixo da cama. E quer saber? Eu não olhei. Eu adormeci mesmo assim, tremendo, suando, chorando, gritando, mas eu não olhei. Eu não quis acreditar em você, quando a casa ficou escura demais pra um garoto que já saiu do útero do teu sonífero querendo dominar o mundo. O mundo que não é teu, adianto. O mundo que me ralou, me emocionou e me fez muito feliz. Eu quero te dizer, inclusive, que não decorei as poesias de hoje. Que escrevi nas paredes do meu quarto, uma vez, que eu não queria que você tivesse ido embora. Em outras palavras, claro. Nunca fui tão óbvio assim. As nuvens adquirem várias formas e é assim que você e me é. Indefinível feito a droga de uma nuvem, que chove e vai embora pra outro continente, conhecer gente mais legal, inundar e salvar a vida do povo Africano e depois morrer no melhor túmulo que alguém poderia querer. E no mais irônico também. Você morre nos meus braços e na minha pneumonia, porque eu só gosto da chuva quando eu estou dentro dela. Sofrendo. E eu sei que você não tem forças pra ir até a África, mas eu deixo você agonizar aqui perto, eu faço de você o meu herói. O trato é esse: Você chega aqui e corta no meio dos meus dedos. Ou então quebra a droga dos meus dedos mesmo e calcifica a nossa inimizade. A nossa estranheza. Só que o teu toque me faria sarar de tanta coisa, ah, você nem imagina. Tua cantiga seria melhor que um sanguessuga no tempo em que o sangue doente das pessoas precisava alimentar uma outra criatura nojenta. Parece bem com a nossa história, mas os dois morreriam. Nada mal pra dois estranhos, hum? Nada mal. Relação estranha de esclavagismo, essa é a verdade. Eu não olhei pros monstros essa noite com medo de me ver em alguns deles. Malditos olhos castanhos que podem ser de qualquer um, menos teus. Mas fica e faz de conta, seu babaca, faz de conta que você me ama. Fica, se você tem punhos firmes e palavra de honra. Porque eu não tenho mais coragem de acreditar.

- Alô?

- Filho, eu estou voltando pra casa hoje. Como você está?

- Pai?

- Desculpe, número errado.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

"Aqui está, de modo totalmente provisório, um primeiro exemplo. Em todos os tempos se quis "melhorar" os homens: é isso que, antes de tudo, foi chamada moal. Mas sob esta mesma palavra " moral" se ocultam as tendências mais diversas. A domesticação do animal humano, bem como a crianção de uma espécie determinada de homens, são um "melhoramento": esses termos zoológicos exprimem unicamente realidades - mas essas são realidades de que o melhorador-tipo, o sacerdote, não sabe nada de fato - de que não quer nada saber... Chamar "melhoramento" a domesticação de um animal soa a nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Quem sabe o que acontece nos estábulos, duvido muito que o animal seja neles "melhorado". É debilitado, é tornado menos perigoso, pelo sentimento depressivo do medo, pela dor e pelas feridas se faz dele um animal doente. - Não acontece outra coisa com o homem domesticado, que o sacerdote tornou "melhor". Nos primeiros tempos da Idade Média, quando a Igreja era acima de tudo um estábulo, em toda parte eram selecionados os belos exemplares do "animal "louro" - era "melhorado", por exemplo, os nobres germânicos. Mas qual era, depois disso, o aspecto de um desses germânicos tornado "melhor" e atirado num convento? Tinha a aparência de uma caricatura de homem, de um aborto: haviam feito dele um "pecador", estava enjaulado, havia sido encerrado no meio das ideias mais espantosas... Deitado, dente, miserável, aborrecia-se a si mesmo; estava cheio de ódio contra os instintos de vida, cheio de desconfiança em relação a tudo o que permanecia ainda forte e feliz. Numa palavra, era "cristão"... Para falar em termos fisiológicos: na luta com o animal, torná-lo doente é talvez o único meio de enfraquecê-lo. A Igreja compreendeu isso perfeitamente: ela perverteu o homem, tornou-o fraco - mas ela reivindicou o mérito de tê-lo tornado "melhor"."

Nietzsche

Como não amar esse homem? 

domingo, 11 de agosto de 2013

A segunda tentativa é sempre mais patética

01:19 AM

É frio. Não é nada parecido com os outros metais. Há uma grande diferença entre segurar uma barra de ferro e apontar um cano de revólver pra sua cabeça. Eu senti minhas mãos tremerem, só não estava com medo. Estava sentindo todo o meu corpo ricochetear aquele misto de drama e prazer que me consumia em cada gota de suor que deslizava da minha testa. Veia terrível à mostra, que só surge quando eu fico muito excitado. Curiosamente se parece com uma forca. Clichê demais, meu amigo. Clichê demais. Vamos tentar estourar os seus miolos, só dessa vez.

Não derramei uma gota de lágrima. Acordei, escovei os dentes, brinquei com o meu cachorro, tomei banho cantarolando, comi, liguei pra minha namorada, comi o resto do meu bolo de pré-aniversário, e li. Depois a coisa era simples: decidir que finalmente você ia tomar coragem pra limpar a sua belezinha encostada na parede antes do campeonato de tiro ao alvo e resolver dar um fim na própria vida. Por que? Estou triste. Cin, pense um pouco mais. Você está triste, mas as criancinhas com câncer também estão. E estão lutando pela vida. Não, eu não creio nisso. Estão lutando pela vida, no lugar da vida. São peões que evitam que o rei perpétuo seja deposto. O ser humano tem um medo muito plausível sobre mudanças e suas consequências. Mas não estou interessado em crer em nada disso porque ninguém enfia tubos no meu nariz pra que eu perceba que viver é uma luta diária que ninguém nunca me implorou pra vencer. Não preciso estar morrendo pra desistir. Só preciso estar vivo. Não que eu queira dar uma de pessimista, porque não me importo com ninguém além de mim, e isso significa que não me importo com ninguém. Não me importo em acordar amanhã e ser a pessoa mais feliz do mundo, mas hoje... hoje eu não quero acordar amanhã.

As dores são insônias, os remédios que eu tomo se embrulharam no meu estômago dizendo um adeus terrível. Imploram para que eu não deixe de senti-los brincando com as minhas tripas enquanto eu brinco de ser saudável aqui fora, num intervalo entre um desmaio e outro. Mas acontece que sou triste. Sou triste, triste e meio. Sem mim a tristeza não existiria. Somos um romance implorando aos críticos mais clichês que nos faça um final feliz. Mal dá pra respirar pensando em tanta babaquice vindo à tona em meus remotos últimos segundos de vida.

A morte é uma terra inexplorada. E eu já cansei de tentar esquecer meus próprios passos nessa imensidão decorada que alguns chamam de... vida? Eu quero inovar. Só isso. O garoto triste quer ser triste em outro lugar. Por sorte eu não acredito em "outro lugar". Deus me concedeu a dádiva de não acreditar nele. E não acreditar em dádiva nenhuma também.

Parece que quanto menos tempo você tem, mais tempo você tem. Mamãe gostava de comprar revistas de novelas pra saber o que aconteceria no capítulo seguinte. Mas assistia a novela mesmo assim pra saber se o que ela leu estava certo. Lógica? Mamãe também morreu feito uma premonição. Sabia quando, sabia como, sabia o motivo de morrer. E optou por ver até onde essa merda ia dar. Por mim, eu acho. Não que eu me sinta tão culpado assim, porque todo mundo sabe que revista de novelas são bem baratinhas. Quase não valem a pena. Mas mamãe também gostava das receitas de bolo que vinham nelas. E gostava de mim.

Fiz carinho no meu cabelo raspado duas ou três vezes com o cano do revólver. A lápide era um berço, a despedida era um riso de escárnio e um arrependimento profundo. Mas não, ninguém se importa com isso. Eu não quero morrer, de verdade. Eu não quero ter que me arrepender quando a bala só tiver feito uma pressãozinha na minha cabeça antes de espocá-la. Porque o tempo nos dá essas brechas, essas falhas. O tempo não nos mata imediatamente. Uma pedra atirada no ar tem que primeiro perder velocidade antes de cair. E ainda dizem que a alma não é só materialismo.

Resumindo, porque estou ficando com sono: deixei que a arma caísse no chão, logo em seguida fiquei em posição fetal esperando que alguém me socorresse. Senti minhas mãos sujas de sangue e não conseguia fechar as pálpebras. Um transe cadavérico. Senti falta do carinho frio na minha cabeça. Senti aquela agonia de um quase-espirro. Com a diferença de estar quase-me-matando.

Tenho uma arma. Tenho um curso de tiro. Tenho uma dor que me consome, diariamente. Um abandono, um peso e um pesadelo. Segredo sobre como é viver uma vida que não é só sua: você não pode simplesmente sair perambulando por aí,  se suicidando. Egoísmo demais.

Será?

Ps: Não foi uma tentativa de verdade. Estava só brincando. Ensaiando. 1, 2, 3 e atenção... Vivendo!

Ps2: A arma estava descarregada. Maldita.

Só então eu chorei.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Sobre Clara, claramente.

O título dói. Deserdamos nosso mistério?

O que eu tenho pra falar é pouco. É pouco porque nunca conhecemos muito da vida. Talvez todas as minhas palavras tenham o teu perfume, talvez não. Talvez eu tenha te esquecido, talvez não. Talvez eu tenha um inconsciente que nunca te amou, e certamente não. O que conta é que nosso amor foi matéria e consequência. Foi dilúvio. Dilúvio sem arca, e não tem nada mais lindo do que morrer de metáfora no lugar de morrer por amor. Qualquer bala e suicídio dramático resolvem, mas no nosso caso, morrer era uma chance de vida. Uma permanência exacerbada, com cheiro de rosa afogada. Eu evitei esse momento o máximo que consegui, porque quis vencer. Superar. Mas qual a graça do drama amadurecido? Eu quero apodrecer de tristeza nas tuas mãos, sem vergonha nenhuma. O problema é que já não sinto mais as tuas mãos. E o carinho, o sentimento, a culpa, é tudo esquizofrenia. Escorro livre feito um desencaminhado fora de época, e eu preciso que alguém me veja sofrer, para que eu compreenda, atônito, que não estou pedindo socorro. Clara, meu bem, eu não quero a sua volta. A nossa obra de arte é lixo reciclável, e só vemos o quão bela é a poesia alternativa quando nos afastamos da exposição. Quando nos escondemos, e vemos de longe, que nos escondemos de nós mesmos. Vemos nossas almas como quem vê um museu. Nossos móveis antigos ainda estão lá. Nosso “sim” e nosso “não”, nossos medos, nossas invejas, nossa irracionalidade. Porque só contigo eu me permito ser saudade. Só contigo eu desarmo o meu humor e digo que sou frágil feito uma rocha, mas que você é forte como uma tempestade. Passageira. Só passageira. Anos de ausência foram responsáveis pela reação em cadeia. Eu e você, aqui, juntos, agora. Explosão nuclear. Cheiro de pólvora. Cheiro de desistências, de remorsos e de amor. Eu preciso dizer, Clara, que vivi. Que estive vivo. Você sabe que a minha respiração é uma bandeira branca. Que meu corpo em chamas é morada do teu crescimento. Então eu estou aqui. Estou aqui por você, como não prometi que estaria. Talvez eu esperava que você soubesse. Talvez, não. Talvez eu só quisesse não te dar motivos de escolha. Estou aqui e pronto, quer você queira, quer não, quer você saiba, quer não. Ou então foi covardia mesmo, porque assumamos, meu amor, que não sabemos nada sobre coragem. Pulamos dentro da fogueira por inocência. De mãos dadas, atravessamos os demônios da infância, os pesadelos do cinismo, o pecado do sofrimento, as chances da vaidade. Fomos inquebráveis. Até o momento em que soubemos que mãos dadas às vezes suam. E quando limpamos o nosso esforço, ficamos vulneráveis. Não somos gente de aproveitar o passado. Olho para trás, eu vejo o presente. Olho para frente, eu vejo um futuro sem passado. Onde está o nosso amor, que não passou por aqui? Por que você permanece, Clara? Eu já soltei a sua mão. Eu não tenho mais forças pra continuar sozinho, eu me recuso a derramar um único sal que não seja lágrima. Desistir é mais nobre, é um luto. É um pedido de desculpas. Porém eu continuo, e você sabe. Eu atravessaria a morte se fosse necessário, e está doendo. As estrelas no céu, meu bem, elas continuam doendo. Vamos cantar e deixar que a Lua adormeça. O mundo, esse sentimental, anestesiou os nossos corações. E tudo bate descompassadamente até o momento em que o mundo sofreu uma desilusão. As placas tectônicas, a tragédia, o choro, o caos, o desespero. E o mundo nos acorda, nos primaveriza, e o inverno é cruel. Nos perdemos por aqui. Nos perderemos amanhã. Só não esquece de como era estar comigo. Não esquece, na hora da tua morte física, que você amou alguém que não merecia ser amado. Que não precisava, eu acho. Você também não precisava. O choro te amou primeiro do que eu, o seu cheiro de tristeza eu sinto daqui. Seus olhos apertados e avermelhados sabiam que diríamos adeus. A nossa probabilidade era quase zero e nossa urgência aconteceu. Clara, fica. Fica para que as flores de plástico do hospital não passem a enfeitar o que é teu por direito. Minha vida, meu gosto, meu despreparo, minha infância, meu primeiro amor. Não nos artificialize, não nos materialize, porque somo só dois coros melancólicos. O vento nos aproxima, meu amor. O vento nos aproxima. Teu nome, Clara, me parece tudo, menos claro. Essa confusão e essa tempestade te deixam ainda mais bonita. É compreensível? A minha fraqueza, ela é compreensível? Não, não tente me compreender. Não tente compreender um homem rico, podre de rico, que deixa Monalisa rodando na vitrine para que possa admirá-la, sem fazer um lance sequer. Até que a pintura acabe. Só que não gostamos de exposição, eu já disse. Te deixei em pé por muito tempo. Você precisava cair. Cair em outro lugar além do meu peito, porque você finalmente notou o buraco que deixou quando eu disse adeus. Eu fui o responsável, mas eu não te quero de volta. Assumo, preciso. Mas não quero. Fica um pouco mais, só pra eu poder te ver. A verdade é que eu não tenho com o que te comprar. Eu não tenho mais a pele tão fina assim e as minhas mãos não encaixam tão perfeitamente na tua caminhada. Perdoa, meu amor, eu mudei. Nós mudamos. Mas permita que eu me esconda nas minhas sombras e te ame de longe, com calma, despetalando e vivendo um sonho. O nosso fim vai acontecer quando eu acordar e ver que eu esqueci de você como quem esquece de respirar. Estou aqui por você, Clara. Estou aqui pra você. Seria nosso destino, se o destino existisse. Um para o outro, um sem o outro.

sábado, 20 de julho de 2013

Édipo

     Solilóquio do último filósofo.
     Um fragmento da história da posteridade.
     O último filósofo, é assim que me designo, pois sou o último homem. Ninguém me fala a não ser somente eu e minha voz chega a mim como a de um moribundo! Contigo, voz amada, contigo, último sopro da lembrança de toda felicidade humana, deixa-me ainda esse comércio de uma única hora; graças a ti dou o troco à minha solidão e penetro na mentira de uma multidão e de um amor, pois meu coração rejeita em acreditar que o amor esteja morto, não suporta o arrepio da mais solitária das solidões e me obriga a falar como se eu fosse dois.
     Ouço-te ainda, minha voz? Cochichas praguejando? E tua maldição teve de explodir as entranhas deste mundo! Mas ele vive ainda e só me fixa com mais brilho e frieza de suas estrelas impiedosas, ele vive, tão estúpido e cego como nunca foi, e um só morre, o homem.
     E contudo! Ouço-te ainda, voz amada. Morre ainda alguém fora de mim, o último homem, neste universo: o último suspiro, teu suspiro morre comigo, esse longo ai! ai! suspirado em mim, o último dos miseráveis, Édipo.

Nietzsche
você deveria engolir os erros e chorar. você deveria saber, como eu sei, que nós nunca existimos. que a única coisa que nós fizemos foi nos inventar.
eu te amo é uma frase forte, mas é uma frase de efeito. nos dias de  maresia, quando as butucas de cigarro no meu cinzeiro não eram tão melancólicas, eu pensava: somos tão sortudos por não precisarmos desse drama. mas nosso drama só foi impreciso e nada mais. engano meu. precisávamos sim. precisávamos nos amar, eu precisava que você me fizesse sofrer, que eu te xingasse, que eu te odiasse, precisávamos de um pedido de desculpas, de um amante, de uma traição qualquer. eu precisava olhar a foto de outra pessoa, me sentir atraído por ela e me sentir imundo por saber que eu te amava e não poderia ser dono da minha carne. mas não, eu simplesmente colei o seu rosto em todos os pecados. e pecado por amor, deus não castiga. eu precisava estar lá quando você me virasse as costas, mas eu nunca estive em lugar nenhum onde você não estivesse também.

eu quero olhar pra trás e pensar: "então foi isso o que nós deixamos pra trás, um amor bonito, mas agora foi, que se dane".

não, porque não existimos.
eu sou algo parecido com o céu
algo parecido com a imensidão
e algo parecido com um vazio
um vazio só
ocupando toda a vida

mas você sabe. a vida é irônica. a vida é uma metáfora e um romance não escrito. uma vingança maldita. você sabe. ou melhor, você não sabe. e dói. dói ser tão covarde a ponto de me mostrar só pelo lado não desenhado. pelo papel em branco. é mais seguro, não? é mais seguro quando se fecha os olhos. mas abra, por favor. abra e veja o que você destruiu por simplesmente não chegar a tempo. olhe o que fizemos pela falta de amar um ao outro. e se culpe, em nome de toda a tua futilidade sagrada. só quando você disser que nunca me amou, eu vou ter certeza que houve amor.

eu digo que um pedaço da minha existência medíocre ficou encravada em alguma parte do teu corpo. eu não sei qual. pode ser no coração, como um clichê de merda, ou pode ser no pé, sem causar dor nenhuma, algo mais puxado pro lado da tua imundície, porém algo original. se erramos foi porque nosso marketing estava bom demais pros meus dias sem movimento. quisemos ser diferentes porque nós dois temos um senso de moral e ética desumano e a boa e moralista filosofia não quer nem desmaiar no chão onde desabamos. é tudo tão vago. e maravilhoso ao mesmo tempo. é maravilhoso dizer que a vida sem você continua, mas ninguém explica que ela continua andando pro lado errado, porque o lado certo seria a morte. a morte exagerada ao teu lado, mastigando vômito e ouvindo um blues. mas somos um ninho de individualidade, egoísmo e sadismo. somos um jogo comprado. você viciou os meus dados, a minha língua e a minha loucura. o que foi além disso? essa poeira que cobre o céu, amor, vai ficar pra sempre. essas estrelas têm gosto de pão dormido. alimentam só o que há de mais instintivo dentro de mim, e a falta que sinto de você é uma fome parcialmente gourmet, uma amostra do pesadelo e do meu desequilíbrio que evitei reconhecer durante todos esses anos. eu nunca precisei de ninguém pra me dizer "chega, você é insuportável", até simplesmente começar a precisar. eu precisava que alguém me suportasse e fosse embora, mas você limpou seus pés sujos de um passado mesquinho no meu tapete de boas vindas. e desde então, ninguém mais entrou. sinto falta do cheiro de lixo que você me trazia. ele espantava. e fazia a dor ter sentido contrário.

sinto falta do amor que eu nunca senti por você. sinto falta de ter uma parcela de mim se enganando, permanecendo não existindo. porque se for pra existir sozinho, eu não tenho mais espaço.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Eu sou o símbolo da tua violação mental. Eu sou esse embolado de preferências, absolutamente fascinado pelo entendimento da mente humana e completamente fugido do imprescindível "dois mais dois são quatro", "a Terra é redonda", "toda proparoxítona deve ser acentuada". Eu, logo eu, tão perfeitamente exato e contendo tão pouco desse homem que eu procuro entender dentro de mim. Tão pouco compreensível, eu sou o símbolo do que você poderia ter evitado, do que você poderia ter ajudado. Um crack que você viciou quando pagou por maconha. Não li minhas cláusulas, assim como um péssimo advogado faria, e me vi na vida com sorte de principiante. Não sei ser triste e alegre ao mesmo tempo, porque quando sou, já não sinto mais nada. Não tenho o rendimento completo, como uma máquina térmica. Sou só teoria. Meu fogo e meu gelo, meu açúcar e meu sal são projeções de um filme que nós nunca vamos assistir. Você é a prática vestida de preto, em eterno luto. Você deveria ter se rendido, ter se afastado, ter desaparecido quando ainda era tempo. Mas houve um tempo em que já era tarde demais. E nós, com todas as nossas diferenças, temos essa maldita coisa em comum: preferimos a escuridão, e quanto mais tarde, melhor. Um vício autodestrutivo. A droga já começa a ruir o seu cérebro. A droga da minha permanência, do meu amparo, do meu cuidado, da minha insistência. E a boca que me consome é o preço que paguei pelos dias de choro consolado, pelas noites que tive chance de despejar toda a minha lábia intelectual em cima da tua vulgaridade, quando já éramos um só. Ambos físicos e humanos, ambos exatos e inexatos. Você é a minha prática, mas errei nos cálculos. Eu também nunca fui muito bom nessa coisa de acertar as contas com o amor, por mais desestruturado que esse amor seja, por mais machucado que meu cérebro estivesse, por mais queimada que a colher do nosso vício parecesse. Errei os cálculos e amaciei cada palavra amarga, fiz gambiarras nos teus atos, acumulei pontos em cima de banalidades para que a vida calasse a boca, e o que tivesse de alerta em mim, sufocasse. Você foi isso, meu bem. Um fatal erro de contas.  Uma eliminação e um recomeço. E eu, tão poeticamente humano, sou o símbolo da tua destruição.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Se os tubarões fossem homens - Bertold Brecht

Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.

Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.

Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.

Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.

Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.

As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.

Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos

Da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.

Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões.

A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as goelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .

Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.

Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante.

Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Eu quero ser o álcool desesperado no fundo do teu copo, pra te dar prazer no fundo do teu poço, pra te dar coragem no fim da tua vida. 

sábado, 8 de junho de 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

Urubu-correio.

Quando eu morrer, diga à criança que virei estrela. Diga pra inocência que fui pro céu brincar com Deus, e que ela não saiba jamais que, até o último suspiro que me restou (naquela noite que virá), tive amigos imaginários, muito mais imaginados do que amigos. Enquanto ela chorar doce e profundamente, diga à criança que esse mundo não me cabia, e deixe-a guardar os brinquedos no baú para economizar espaço. Economia é a doença do século, e não a depressão. Quando ela perguntar por mim, diga à criança que fui viajar. Deixe-a que percorra com os olhos lacrimejantes todas as terras, permita que ela construa o paraíso na América Latina, no nordeste da África Negra, no tanque do petróleo, no aquário de carpas do Japão. Deixe que ela olhe para o espaço azul, sendo eu a nuvens mais gorda e com cheiro de chuva, mas não permita nunca que ela interrompa a viagem. Não deixe, em hipótese alguma, que papai noel não me traga de volta no próximo Natal. Enfie aquela carta no correio, endereçada ao Polo Norte, e os sonhos me trarão de volta. Mas não se esqueça de comer todos os biscoitos e beber todo o leite antes que ela acorde.

Quando eu morrer, diga aos velhos que fui feliz. Engome aquelas testas enrugadas e fedidas de quem "carniceia" com os olhos e esqueceu de escovar os cílios prestes a enfartarem de tanta porcaria. Diga aos velhos que fui em paz, para que enterrem o caixão em silêncio, para que consolem os ombros em profunda gratidão, para que não escorra da boca o chorume, para que as unhas compridas do monstro, ao saírem da língua apodrecida, não perfurem os véus de viúva negra onde todo mundo esconde o tédio. Diga aos velhos que fui porque simplesmente tive que ir, e poupe as auto-ajudas e os conselhos melodramáticos. Faça-os senhores de si, donos do conhecimento mortuário do mundo inteiro, faça-os escreverem discursos e inaugurarem o pretinho básico, para que eu não fuja do padrão. Economize também o trabalho do coveiro. Não é fácil segurar o riso em situações solenes. Pelo menos eu nunca consegui me manter hipócrita num enterro desconhecido. Triste vergonha. Questão de falta de falta de falta de falta de falta de falta de educação. Morri tão jovem, merecia tanto respeito, tanta admiração... Ai de mim.

Quando eu morrer, diga ao meu corpo raso que ele já foi dessa pra melhor. Deixe que eu durma, que eu tire folga e que eu me demita, que o meu câncer seja uma mancha no ultrassom e que meu suicídio literário (e tenho que dizer que é literário, caso contrário, eu seria Getúlio Vargas) tenha sido completamente em vão. Diga ao meu corpo que gastei minha bala à toa, mas em dois ou três meses, quem sabe eu estivesse vivo ainda. Não custa nada colocar uma gota de leite na boca de um bebê nigeriano. Diga ao meu corpo gélido, que não há cadáver mais vivo, e diga aos presentes tristes, que não houve vida mais morta, para que eu perca satisfeito o gosto de viver. Escreva na minha lápide que o jogo acabou. E eu venci.

Vamos passar de fase e zerar a vida, porque ainda não sei abandonar o que comecei. E a destruição é um vício que eu ainda não consegui finalizar.

domingo, 26 de maio de 2013

Com quantas tragédias se faz um fundo do poço? Eu sofri e lambi minhas feridas feito um cão de rua apedrejado, suguei o sangue da ponta dos dedos, tomando o cuidado para não deixar apodrecer os cantos embaixo da unha. Eu amarrei um saco plástico dentro de cada órgão meu, fechei a luz e acendi o forno. E acordei no dia seguinte, com a saudade arranhando a porta de entrada. Gato jogado no pântano que volta pra casa todas as noites. Uma manchete manjada, uma primeira edição amarelada e um sujeito anacrônico. Parece que a regeneração do ser humano é uma espécie de Alzheimer degenerativo. É irônico. Cada marca e cada algema destruídos feito suco em pó. A pele não tem memória, mas é a consciência que faz da experiência um desespero. Ser humano implica em ser alguém definitivo. Nenhuma dessas famas de aventureiro, essas longas viagens com mochilas nas costas, essa fuga do tédio existencial. Tudo anseia por um nome, e a experiência, paradoxalmente, não vale nada. Não. A aventura diária é se descobrir. E cada descoberta não é mais experiência. Deveria ser, mas a pele não tem memória. Cada tentativa implica na probabilidade do erro, mas ninguém investe querendo errar, e a regra vale pra qualquer tipo de negócio. Ninguém quer ter experiência, e sim descobrir que não sabe de nada quando encontrar o primeiro par de olhos genuinamente sincero na rua. Quer demonstrar que não viveu nada para que os diálogos ganhem milhões nas bilheterias cinematográficas. E o inconsciente chora, pois que bonito é ferir a mesma pele todos os dias com uma tatuagem nova e na manhã seguinte arranjar forças para desenhar um novo traço. Eu sempre achei que tatuagens ficavam mais bonitas ensanguentadas. E é a tinta o que verdadeiramente fica. O sangue é descartável, uma ponte de acesso. A arte é a arte-final. Não existe rascunho para a dor, portanto. A circulação dentro de nossas veias foi o primeiro rio filosófico da Antiguidade. A tristeza, o choro, o drama, o sentimentalismo, a impotência... Nada disso passa duas vezes pelo mesmo fim.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Então não vamos falar de falta.

Vamos falar sobre a televisão desligada, já que todo barulho é incômodo quando não é a sua voz que me incomoda. Vamos falar sobre o escuro e do quarto sempre pequeno demais. Vamos falar sobre os refúgios da minha colcha que teríamos desarrumado juntos. Vamos falar dos meus olhos cerrados quando, sem querer, me deparo com um perfume forte que poderia ser o seu. Vamos falar sobre como passei a odiar a Lua mais do que as próprias estrelas. Vamos falar sobre as músicas que deixei de ouvir. Vamos falar sobre as cores que deixei de usar. Vamos falar sobre a vida que não sai do lugar, sobre o sangue que não quer mais escorrer, sobre os livros velhos que deixei de cheirar. Vamos falar sobre as poesias que passei a odiar. Vamos falar sobre olheiras, café, chocolate e solidão. Vamos falar sobre amor, mas falemos pouco, porque sinto falta de quando cheguei a amar você, e prometemos que não íamos falar sobre a falta. Vamos falar, então, sobre o celular desligado pelo medo incessante de mandar sinal de fumaça. Vamos falar sobre o incêndio no meio do mar que me provoca arrepio de poesia na costela, porque lá é a minha vida, lá é a minha história, meu paradoxo, meu modo de te deixar. Vamos falar sobre futebol, sobre índios, sobre sexo. Vamos falar sobre as lágrimas que não vou derramar. Vamos falar sobre o vinho que eu deixei de comprar. Vamos falar sobre a alma que deixou de brilhar. Vamos falar de um tom de cinza que eu deixei de pintar. Vamos falar sobre um adeus que eu esqueci de ensaiar. Vamos falar das fotos que nunca vamos tirar. Vamos falar sobre os caminhos que eu passei a evitar. Vamos falar da vida, da morte, da infância, vamos sentir pena um do outro, vamos falar sobre os vídeos que nunca vamos gravar. Vamos falar sobre os remédios que eu acabei de viciar. Vamos falar sobre o espelho que eu acabei de cobrir, vamos falar sobre o desgosto que eu aprendi a sentir. Vamos falar sobre nós... e acabou-se o assunto.

domingo, 12 de maio de 2013

Aspirinas.

Hoje tomei um vidro cheio. Um vidro todinho, repleto das famosas pílulas brancas. Misturei tudo com remédios pra gripe. Jurei que tudo não passava de uma forte dor de cabeça, decorrente desse maldito tempo de chuva. Jurei que era só uma fadiga muscular, e passaria logo. Coisa mais tosca essa de negar a morte.

O suicídio é mesmo assim? Se for, é patético. Fechar os olhos e imaginar que pronto, tudo bem. Foi só uma vida mal vivida, um desacompanhamento psíquico desastroso. Foi só um sonho ruim, vou acordar do lado de lá amanhã e tudo estará bem. O passado já bem passado. Minha carne estará bem passada, à parmegiana, com recheio de remédio. Um banquete para os devoradores de vermes alheios, aqueles carniceiros, aqueles... Que devoram a morte nossa de cada dia. Pessoas que encaram a vida como uma gripe, que encaram o batimento cardíaco como as palpitações das veias da testa. Um leve franzir de sobrancelhas. "Onde diabos eu enfiei o meu anador?"

E eu engoli todo o vidro do remédio em alguns minutos. O gosto amargo na boca era horrível. E eu imaginei que seria minha última tragada na filosofia da existência. Da existência que não valeu o choro, do mundo que não mereceu Lispector, Bukowiski, Lord Byron, Einstein. E quando a gente faz esse tipo de discurso tipicamente pré-adolescente ou pós-meia idade, percebemos que a droga invadiu mais do que o seu corpo, invadiu também a sua dignidade. Charlie Chaplin, o grande ídolo-merda que todo mundo passou a gostar depois que outro ídolo-merda se fez coexistir em fotos P&B, morreu fazendo a tristeza pra mim ser um vício. E o inferno é que não estou sendo dramático. O inferno mesmo é que não estou usando metáforas de alguém que tomou dois vidros cheios de veneno legalizado. Eu sou apaixonado por olhos tristes, ainda mais pelos olhos do grande boêmio Charlie Chaplin. E pra mim, a vida é um olho vermelho, inchado, sem colírio. Na ausência da terra onde os grandes gênios pisaram, meu último sinal de orgulho dizia que eu seria enterrado com ela. E eu não estaria vivo para ver a miséria e a decadência. Mas quem aqui falou em morte? Eu só tinha tomado minha dose de aspirina. Aquela que seria a última, certamente. A sensação de nunca mais ter dor de cabeça é maravilhosa, mas o "nunca" também assusta, e não é apenas uma sensação. Nas noites de dores de cabeça eu podia impregnar o cheiro do álcool no meu travesseiro. Eu podia fechar as luzes com a desculpa de não perturbar a visão, e mergulhar dentro da minha dor, sem que ninguém perturbasse o coitadinho com enxaqueca. Pode parecer um tipo de sadismo tipicamente imoral, mas minhas contrações na testa era mais do que uma simples dor, era a minha pele pedindo auto-carícias que minha alma só fornece involuntariamente, por meio de irritação, suor e vontade de dar um tiro no cérebro.

Mas só existia um fato. Eu acabara de tomar cerca de vinte e cinco comprimidos para dor de cabeça e gripe. Talvez remédios assim considerados tão amenos não derrubassem um homem feito eu, mas a pergunta era: Eu estava tentando me matar? Eu estava, verdadeiramente, de saco cheio? Eu realmente esperava acordar no dia seguinte sem dor de cabeça e sem pulso? Talvez fosse uma verdade que eu não conseguira engolir com água e ignorância. Era preciso algo mais. Algo mais forte que um traumatismo craniano para fazer entender que não era apenas a dor de cabeça ou o nariz escorrendo que me incomodava. Talvez as palpitações na testa não fossem tão insuportáveis quanto as batidas do coração.

Augusto Cury certamente diria que eu sou um homem excepcional pra bater as botas. Diria que eu faço algo de bom pra sociedade, afinal de contas, nunca fui preso, não me drogo, tenho uma família bacana e minhas ex-namoradas são loucas por mim, e eu por elas. Augusto Cury não diria, por exemplo, que a prisão está adormecida embaixo das minhas unhas, a droga eu comprei na farmácia, a família bacana só é bacana quando não pergunta como eu estou me sentindo e eu faço todo mundo sofrer com essa história de não desamar ninguém. Mas não, Augusto Cury não venderia tanto se perguntasse para a humanidade o motivo de serem toxicômanos por tristeza literária. Humanidade que precisa registrar com seus próprios olhos que são lindos e excepcionalmente incríveis para se trancarem no banheiro. Eles simplesmente dizem que a felicidade está nas coisas simples da vida, em coisas que não damos valor. E mais do que isso, em coisa que não têm valor. Mas eu fui lá e comprei minha dor. Não há quase nada que eu dê mais valor do que remédios para dor de cabeça, e tomara um vidro inteiro deles. Tudo demais é veneno, e a vida, quando sobra, não é diferente.

Tudo estava rodando na minha cabeça. Eu, particularmente, não acho que tenha sido efeito dos remédios. Talvez só o sono que me deu, no meio daquela euforia psicológica, mas não toda aquela náusea, aquela afobação, a sensação de estar com meu estômago em chamas. A terrível descoberta de que não colocaria ração pro meu cachorro no dia seguinte. Que minha avó chamaria meu nome, em vão, e teria que ser obrigada a abrir a porta do quarto e, logo depois de desmaiar, limpar todo o estrago que eu fizeram com a nossa pequena farmácia caseira. Seria um fim trágico para um princípio tão feliz. Um choro tão inocente. Vamos experimentar ser triste só pra ver no que dá. E é na tristeza que vemos as mazelas do mundo, o caos da sociedade em si, a pane que dá nos seus órgãos vitais, na tristeza ficamos vulneráveis às doenças sentimentais, aqueles tumores cerebrais que incham e ocupam o lugar da racionalidade verdadeiramente capaz de mudar o mundo em que vivemos. É triste. Tudo é triste, e traste.

Esse foi intervalo de tempo entre querer morrer e enfiar um dedo na garganta.

A vida é um vômito forçado.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Sobre as constantes descobertas da vida.

A gente escorre pelo cano, cai no desespero. Abre a porta e despenca um vazio com menos de dois centímetros de profundidade. A queda só fica maior quando a gente percebe que nenhum chão é duro o suficiente para fazer nosso cérebro virar uma geleia sentimental, sem pulso e sem tédio. Só dói quando pára de doer, porque aí sim, nossa carne silencia. O silêncio é um mar que não tem maré. Um mar não revolto, que não traz tempestades, mas não traz conchas, e não traz a criança em mim que brinca de escutar o infinito soprado pelo vento

E é exatamente assim que eu me sinto agora.

Sinto o peso do colchão entrando na minha revolução, no meu medo de pagar ingresso pra minha própria vida e não saber contar o final, dormir antes da cena que poderia ter sido a última, caso eu tivesse acordado e aplaudido a tragédia, sem ter motivo pra ficar na dúvida. A família do "A" inclui amor, ausência e abstinência. Eu já passei por cada uma dessas palavras e senti um gosto diferente no café da madrugada (e espero que você entenda o que café e madrugada representam pra mim). Algo mais do que açúcar ou adoçante. Algo que parecia a vida querendo sair do meu peito, mas nada que me provasse que o meu coração na verdade não seria uma enorme câimbra, pondo em vista que eu nunca gostei de potássio, fruta, eternidade, esse tipo de coisa que o fortalece. Pois bem. Se a vida é uma fuga, meu bem, amor é uma despedida inaudível, ausência é uma escapada pelas janelas, que eu ainda não sei bem onde fica, seguida por uma longa deficiência nas pernas e a abstinência é um arrombo no peito.

Um arrombo no peito que faz a vida fugir lenta e cruelmente, porque o desespero ficou lá nas pontas dos pés, quando o amor rouba tudo o mais depressa possível e deixa uma casca-zumbi para que o café amargo da madrugada passe direto, atravesse a alma e respingue no colchão que entrou na revolução da minha existência silenciosa e acomodada.

É exatamente assim que eu me senti a vida inteira.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Fim dos textos antigos.

Recomeço.
O poeta não chora. O poeta ora, derrama lágrimas em letras, tristezas em versos, lamúrias em árias, vertentes de águas em palavras de mágoa… O poeta não chora, soluça em hiatos e ditongos, seus prantos são cantos, sua dor estribilhos, prismas de sílabas e irmas. O poeta mente, sente o que não consente, descontente em sentimentos, mas contente em seus lamentos. O poeta é um falsário, não disfarça a sua dor, mas fala em tom de farsa. O poeta comove, e se revela quando se esconde. O poeta ora, o leitor é quem chora.
O copo vazio, o corpo cheio, o coração indeciso, a coragem, o devaneio. A descoberta parada, a saudade calada, a esperança cansada e a vontade de ser amado. O medo de perder, a angustia de esquecer, a incoerência de não ver, a desventura de não ter. Os beijos roubados, os abraços dados, corações apertados, delírios evaporados. Os gritos roucos, os desejos loucos, a verdade de poucos e a mentira de outros. O copo encheu-se, o corpo perdeu-se, o medo esqueceu-se e a mentira abandonou-se.Caindo, caindo, caindo… Deixando-me pouco a pouco, matando-me muito a muito. Esquece-me, porque de mim já não lembro mais.
O inferno não tem cheiro de enxofre. O céu já me mostrou demônios. Perdões e pecados, juntos, como espírito e carne, caminhando lado a lado na trilha do meu purgatório onde os gritos de tormenta são teus sussurros que me gritam incertezas e talvez. O paraíso como ilha deserta, tranquila, sem coral e sem perdição. O avesso é o lado de cá, inflamável e masoquista. A paz também enlouquece os solitários, mesmo aqueles que já venceram a guerra das bocas e erguem a bandeira branca manchada de sangue e vitória como papel e lápis. A companhia das letras é veneno bom para tomar aos poucos. Aos bocados, ela seca e desentope as artérias do que deve explodir dentro da gente. Não sei e nem quero ir para o céu todos os dias, porque sou feito de metades. A linha que separa os meus desejos é o medo que se alimenta das pedras de todas as fortalezas que construí na vida. Medo que me impede de ser salvo e morar na ilha, medo que impede que tais paredes me isolem das tragédias e do inferno que preciso para sobreviver. O sofrimento que respiro é o oxigênio filtrado. Sem ele a poeira invadiria meus pensamentos e a pureza do meu pulmão ilhado seria expelida como um espirro. É esse inferno que eu preciso. Esse olho vazado, esses pés rachados, esse coração crescido. O lixo, a doença, a operação tão arriscada que nenhum cirurgião conseguiria realizar, esse tumor que inflama no meu cérebro ferido. Os ossos espalhados pelo chão, a dor, a alma despejada aos pedaços como corpo leproso, as vísceras virando comida de abutres cegos, os apedrejamentos em praça pública, os rios de melancolia que escorrem mal cheirosos pelos córregos e esgotos a céu aberto são apenas os meus dias ruins. Meus dramas e meu inferno. Ai do Demônio se eu não tivesse sede de ser feliz. Ai dos anjos se eu fosse o Deus do meu corpo. Ai do mundo se eu não tivesse medo, ai de mim se a vida não me perdoasse. Eu só não me arrependo de morar no purgatório porque o teu maldito amor também tem mania de ficar em cima do muro.
Hoje eu não vou falar de morte. Hoje eu não vou falar do adeus, da tristeza pueril. Hoje eu não vou falar do luto, das flores que enfeitam uma hipocrisia da saudade eterna, hoje eu não falarei sobre herança. Não há nenhum epitáfio no fim do arco-íris, não há indigência, tampouco cadáver, viúva e caixão. Hoje eu falarei sobre o purgatório de todos os pulmões e o inferno de poéticos corações: a própria vida. Sobre o amanhecer e o entardecer, sobre o colchão desarrumado e o despertador esganiçando. Falar sobre o que tem final é fácil, o difícil é falar do que não tem começo. Cientistas dizem que a vida começa ainda dentro do útero, com quele grão de arroz. Aquele miserável parasita que viria ser Hitler, Mozart, Cecília Meireles, Charlie Chaplin, Jack, o estripador, Osama Bin Laden e Barack Obama. Onde está a personalidade de um grão de arroz? Quem é heroi, se não nasceram ainda os seus inimigos? Quem é artista, se não houve tempo para ser lunático? Quem é poeta, se ninguém sabe escrever? A vida não é vida se não tem futuro, se não tem digital. Outros dizem que a vida só começa no primeiro choro. O que acontece após o banho de sangue? O início da morte. As pupilas que ainda não se abriram, os pés que nada valem, a fome, o medo, a vontade de voltar a ser nada, porque ser pedaço de pele desprotegida é mais temível do que a escuridão. O vento dói, a língua enrola, as luzes saltam. Queremos voltar. E nos proíbem. O primeiro choro é escravidão e o açoite vem de branco e estetoscópio pendurado no pescoço. Você não pode mais ser quem você é. Você não é mais um mísero grão de arroz. O mundo agora é seu, mas você não pode abandoná-lo quando quiser, porque já não seria vida. Se nascer é medo, quem não tem medo de morrer? O primeiro choro é também a primeira morte. Então a vida propriamente dita deve começar no início da formação da personalidade, onde criamos a primeira noção do que somos, do que temos, do que enfrentaremos. Extrovertidos, antipáticos, festeiros, caseiros, cruéis, sensíveis, calados e tagarelas. Todos juntos, numa armadilha onde a vontade de viver é um brinquedo caro. Mas a vida só começa a ser vivida quando deixamos a futilidade e cortamos as asas. Fomos nada, fomos grãos de arroz, agora somos crianças com medo de monstros. A vida não é vida sem sucesso, é sobrevida. O sucesso começa na escola. A química que matou milhares em campos de concentração, a gramática da norma culta que deixou as leis mais bonitas e menos legíveis, a história que inspirou guerras, a matemática que Einstein usou para a ajuda na construção da primeira bomba nuclear. Genialidade. Agora somos instruídos o suficiente para dominar o mundo, mas ainda somos incapazes de viver com as próprias pernas. Mas já somos mancos em direção da cura e as muletas são a vida adulta. O dinheiro, as festas, os amores, as fofocas, a sede de poder, a indiferença. É aí que a vida começa, então? Claro. A vida começa depois que a gente trabalhar, dormir, beber, ganhar dinheiro, poupar, gastar, comprar mais, jogar no lixo, drogar-se, engravidar ou engravidar alguém, ter filhos, acordar tarde, assistir televisão, trair, pagar multa, sofrer acidente de trânsito, esquecer da conta de luz, brigar com o marido, fazer greve, ir para o bar, resolver equações que você não lembra mais, pegar fiado na mercearia e depois, se sobrar tempo, envelhecer. O que sobra na velhice? O medo da solidão. Se amamos alguém, não há túmulo para dois. Se moramos com alguém, não há túmulo para dois. Se sonhamos com alguém, os sonhos morrem com a gente. A velhice é a segunda morte. Quando começa a vida, então? O grão de arroz ficou tão preocupado em ser banquete que esqueceu de viver. O grão de arroz precisa da vida após a morte, porque a vida não teve vida o bastante. A vontade de permanecer vivo continua sendo brinquedo caro demais. Não temos mais tempo para brinquedos, não temos mais dinheiro para gastar. E, então, a gente finalmente morre. Morre sem ter motivo, morre sem ter vivido. Fechar os olhos para sempre, perder a consciência. Voltamos para a escuridão, voltamos a ser nada. Em breve, diminuiremos de massa, em breve seremos grãos de arroz novamente, em breve não seremos nada, seremos apenas uma saudade. O choro, o sentimento, a emoção ficam do lado de fora. Acabou. O mundo não é mais problema nosso, porque a verdadeira morte é a primeira vida.
Enganara-me. Te ofereci lágrimas e tu mostraste a beleza das cachoeiras, a imensidão do oceano, a solenidade dos rios. Quis fazer de minhas minguadas gotículas, um segundo dilúvio. Encarnei sorrisos e tu viera com as máscaras tristes de um teatro mudo. Silenciei-me, como vítima e réu confesso da arte. Pus em tuas mãos a minha dor e tu disseste que não era nada se comparada com a melancolia dos poemas desertos. Tornei-me compositor de rimas e exalei sofrimento em forma de dilúvio e máscaras circunspectas. Assobiei para ti respingos da alma e tu me fizera acreditar que alma só tinha quem amasse. Fizera de mim um amante, um louco, um passivo. Busquei em ti soluções para que jamais me tornasse aquilo que tu me transformaste ao longo do tempo e da paixão larvária e inofensiva em que me vi apodrecido. Enriqueceu-me de sentimento, quando tudo o que me prometera fora belos olhos e uma boca ácida. E o maior engano foi querer enganar a mim mesmo, que não engano nem o mais ingênuo dos homens e a mais astuta das mulheres. Um tolo por confiar na traidora de prévio aviso. Se com toda a minha loucura ainda for capaz de balbuciar algumas palavras, eu te falo num agora já passado que amor não acontece entre um homem e uma mulher. Amor acontece entre verdade e mentira, coração e trapaça, livro e carapaça. Amor também acontece a ferro e fogo. Tu feriu-me com a espada que eu quis derreter, tu lançou o perfume dos pântanos em frascos bonitos para que eu pensasse que eram rosas. O esquecimento levou-me a decadência. Esqueci que não sei chorar, sorrir ou sofrer. Esquecer levou-me a renascer, e renascer levou-me a cavar o meu próprio túmulo. Hoje, renascido, humilhado, horrorizado e injuriado… Eu te perdoo. Eu te perdoo, traidora inescrupulosa. E o perdão só veio porque me ensinaste a amar.
Rimas. Ri mais? Rir, mas de quê? Talvez um quê de queijo, um bê de beijo. Beijo vai, mas bem jovem. Então vem! Nu mesmo, vem nuvem, vem. Mas vem sem. Sem vergonha, sem pudor, sem graça, sem açúcar e sentimento. Se sentir, não vou deixá-lo ir. Sem ir, sem ti, eu não vou a lugar nenhum, nem dois, nem três e nem quartos. Por que mentes? Ah, que mentes não sentiriam saudades doentes… Do ente querido, do ente que queria ter ido, do ente que quase foi. Ufa, e foi por pouco. Já anoiteceu. A noite teceu estrelas, estralos, entranhas e estranhos. A noite teceu trapézios trapezistas, trôpegos, traficantes, trapaceiros e tresloucados. Também temor. Ter amor, amoras, amantes, amarelos… Ah, não. Amá-los ou amar elos? Meio a meio, meio fio, meio feio, meio feito. Essa história meio fora de hora de novo? Sim. De novo, de novo e de manhã, de tarde, de velho, de ontem, de frente, defronte e de ré. Ré é renascer renascentista, iluminista, sulista, turista, budista, autista. Arista? Mundano! Mundo mudo muda mudas. Mudas de gente descrente, descontente, demente, indecente, decadente, ai! Dor de dente, dor de gente. E quem cura? Loucura.
E ela foi minha primeira namorada, encerrando os meus pés descalços e bermuda desfiada na região dos joelhos vermelhos. Foi meu primeiro beijo, minha primeira memória. Foi o primeiro prato extra que saiu do armário no primeiro natal que tive que comprar presente pra alguém. Foi meu amadurecimento, minha fruta caída, minha primeira parada na vitrine da joalheria, imaginando aquele anel de ouro branco nos finos dedos que eu entrelacei os meus no meu primeiro pedido cheio de vergonha. A segunda colher na panela de brigadeiro que devorava sozinho aos domingos. O primeiro urso que comprei com o dinheiro da minha mesada. A primeira chateação com a minha péssima memória para dias importantes, o primeiro amor… Aquela desgraçada que só sabia me explorar. Ainda bem que acabou, e digo que acabou tarde! Filha da mãe. Nem era tão bonita assim pra ser o meu primeiro erro. E a sensação de olhar pra trás e pensar: Mas por que diabos eu me apaixonei por aquele demônio? Mulher chata, sim. Muito chata. Eu disse e agora repito: Amor é uma droga. Uma droga que mata os que não se viciam nele. Não pode ser coisa desse mundo. Não pode, não. E só pode ter vindo lá de baixo. O bom é ser livre! Guardar o prato no armário e comer na casa dos amigos. Carência é coisa de pau mandado. Foi numa das bebedeiras, escutando rock pesado, que eu conheci aquela menina da rua de cima, que mora embaixo da macieira mais linda de roubar. Papo vai, papo vem, você quer namorar comigo, moça bonita? Dessa vez é pra sempre. Não é possível que não seja. São pássaros cantando, são borboletas voando. São minhas notas de literatura atingindo o nove e o dez e os parabéns da professora que sempre me diz com um sorriso no rosto: “Mas esse menino nunca esteve tão sensível”, são meus pais chamando na hora do jantar “O que foi que deu nesse moleque pra nem tocar na comida? Isso só pode ser amor”. Vai dar casamento. Ela não fala demais, ela não me cobra presente, ela nem gosta tanto de brigadeiro assim. Ela gosta de música lenta, de saia verde e de tocar a ponta dos outros dedos com o polegar. Eu tinha nomes lindos pros nossos filhos, eu chamei parente pra ser padrinho. Aí ela disse que não dava mais certo. Que tava confusa, que ia viajar e que era nova demais. Meses depois a safada viajou pra não sei onde me trair com não sei quem. Soube que noivou com um cara marinheiro. Mulher não presta. Amor não presta. Paixão, então? Quem é que precisa de paixão? Quem é que precisa de chifre, quando não se quer mugir? Isso é bom pra eu aprender a deixar de ser besta. E como tem homem besta nesse mundo, meu Deus. Dar a vida em troca do amor de uma mulher. Tenho até pena do marinheiro, que vai casar com uma criatura mundana. Ingrata. Meus amigos logo ficaram sabendo da tragédia. Churrasco! Vamos bebemorar. Porque só presta assim. Homem esquentando a barriga numa churrasqueira, muita carne e mulher desconhecida que é pra não se apegar. Eu não vou casar nunca! Ter meu apartamento, meu carro, meu trabalho meu cachorro, e minha panela de brigadeiro. E foi no tal churrasco que eu conheci o amor da minha vida. Aquele sorriso lindo, aquele cabelo loiro solto, aquele óculos meio torto… O pessoal do escritório falou: Você não perde tempo. Só perde tempo quem não ama! Essa sim vai saber me dar valor. Viajamos pelos quatro cantos do mundo, tiramos fotos em Bangladesh, em Nova York e em Dubai. Mulher companheira, independente, dona do próprio carro. Compra os próprios cigarros. Veio de cinco relacionamentos fracassados. Achei desnecessário contar do passado… Como diria Jorge Vercilo, os amores passados tornaram-se pontes pra que eu encontrasse aquela obra fantástica dos céus no churrasco de comemoração minha separação. E ainda há quem diga que não existe destino, não é mesmo? Fomos morar junto e compramos até um cachorro, um simpático buldogue. Fomos felizes durante cinco anos, até que a coitadinha morreu num acidente de carro. O amor é mesmo uma porcaria. Eu vou dizer, rapaz: Nunca, escreva aí o nunca em letra maiúscula, eu nunca, n-u-n-c-a mais vou amar alguém de novo. Porque eu só sei amar errado. Amor é como as mulheres, amor me usa, amor me trai, amor morre. Eu não vou me apaixonar de novo. Agora é só eu, o buldogue e a panela de brigadeiro queimada. Ah, o caminhão de mudança veio trazendo a nova vizinha. Mas não é que ela é bonitinha… Ei, moça, seja bem vinda!
Sem lirismos e situações metaforizadas, sem palavras difíceis com significados impressos em Aurélios e nunca pairados em teus ares, sem ramas de palavras oferecidas como quem compra buquê de rosas de um ambulante para presentear a chateação do esquecimento de uma data especial. É melhor assim, amar sem regurgitar a necessidade de fazer do amor uma “coisa” bonita. Qualquer coisa, por favor. Qualquer coisa, qualquer trivialidade, qualquer pano de chão para tornar-se seda. Uma coisa ou pessoa? Você. Você e seus cabelos que fizeram o negro do céu se esconder por vergonha de conter menos carvão. Menos carvão e menos fogo do que seus olhos que exalam fumaça mais inebriante que nicotina em sensualidade cinza. Você e sua pele com cheiros que nunca senti, mas sei de cor o nome das flores que faltam existir para descrevê-los. Eu quero assim, escancarado, de pernas pro ar, abandonando sacos plásticos para que a maresia da saudade consuma o que pertence ao vento. Eu quero escrever assim, esquecendo de conjugar a beleza, mandando sentidos fazerem seus poemas bonitos no inferno, matando rimas e construindo críticas. Eu quero assim, bruto feito diamante ceifado de mãos sofridas. Assim como joia cara, a lapidação do sentimento só serve para quem nunca vai usá-lo, apenas atirá-lo como isca para beijos artificiais. Eu te quero aqui, e mais do que isso, eu te quero pra mim, te quero por completa, te quero suja de terra e sem valor algum. Sem concordância verbal, sem adjetivos, sem regra de crase, sem vírgula decoradas, sem pausas ensaiadas, sem delicadeza, sem enfeites e cem por cento de você. Quero sangue ainda fluorescente, quero roupas ainda não rasgadas, quero virgindade de reticências e promiscuidade de pontos finais repetidos. Eu quero assim, exatamente assim. Quero que a nossa única mudança seja de posição quando o travesseiro marcar o molde de nossas cabeças após longas horas de insônia e sorrisos clichês, quero que nossas lágrimas se misturem ao café gelado que esquecemos de beber quando tentávamos nos manter acordado depois de algumas promessas trocados durante a madrugada, eu quero que seu nome esteja aqui quando a eternidade pretender chegar. Quero que a Lua me perdoe por nunca mais cortejá-la com metáforas previsíveis em textos milimetricamente acinzentados por um mim, um mero mistério barato, um apaixonado de moletas, um caçador sangrado. Que a Lua do nosso primeiro encontro me perdoe, mas você tornou-se minha folha de papel em branco, meu silêncio, minha rendição, minha poesia, meu amor. Meu único amor.

Paredes enormes e um homem encurvado.

Triste… É isso que definiria o momento. Uma canção triste, uma roupa triste, um vazio triste. Tudo é triste. E traste. É a definição mais encontrada no dicionário para quem pulou a letra “A”, por medo do amor de avalanche e foi direto para a letra “T” de tristeza por tudo. É a definição da pressa, do congelamento do descongelamento pueril. Tristeza é um sentimento coletivo, um sentimento de metrô. Um sentimento de meio metro, talvez. Tristeza é o frio que encolhe as paredes de concreto no meu quarto, que foram feitas especialmente para me caber. Mentira. Eu forço ligas metálicas com o meu próprio medo de abandonar o mundo e morar em mim. É um contra-peso. Mas a tristeza, a tristeza encolhe o concreto. Pregos não entram em mim, mas as pragas enchem a minha carne de furos. Eu não sou algo que alguém decora. Eu sou algo que alguém improvisa. Textos improvisados são melancólicos e cheios de erro, são apresentados com gagueira e má formação da língua. São zombados por correrem o risco de serem brilhantes. Brilhante como uma prata vencida. Uma joia de meretriz. Eu não sou para decorar. Enfeites são jogados no fogo do meu estômago, pois eu engulo detalhes e sintetizo o minimalismo monocromático. Eu engulo pregos e detalhes. A tristeza encolhe paredes e a tristeza, portanto, me encolheu. Concreto como uma lágrima e abstrato como uma dor. Eu sou duro com as palavras, mas as palavras me mostram a recíproca, e a recíproca verdadeira é um corpo baleado pela brandura do papel, que não aceita um grafite áspero como o meu. O mundo mudou. Eu não pulei a letra “A” e no primeiro tremor das aspas, no menor barulho, no tormento inaudível, o ar se desdobrou em um oxigênio perfumado. Um oxigênio que lembrava a essência da tristeza que eu sonhei encontrar quando abri a página do dicionário pela primeira vez. Eu não sabia nem do fim do mundo, muito menos ia saber do fim do alfabeto. Pra mim, tudo acabaria ali. Na tristeza. Mas as páginas rolaram, e rolaram, e rolaram, e a tristeza permaneceu encolhendo o meu quarto. Tudo era triste. Tudo era um sonambulismo de inquietude… Viver era não mais que um impulso cerebral. Cérebro encolhido, porque crânio também é abrigo. Eu passei pelo amor como quem passa mal. Eu passei pelo amor correndo, desfazendo-me, desintegrando-me. Mas a tristeza não passaria. Nem restituiria-me o que perdi no meio do caminho, quando minhas paredes internas eram resistentes, quando a minha resistência não era um sopro de vida inválido. Tristeza é um amor encolhido, um amor mal desenvolvido, um amor abortado. Tristeza era o meu fim, mas nada acabava. Nunca acabou. A página continuava a ser virada. Por mais que eu quisesse, letra impressa não pode ser apagada. Aspas, avalanche, tristeza, amor, final, parede. Qual é a relação das definições? Junte tudo e terá uma desordem. É essa a tal definição em comum. O nada. O pó. O verme. O caos. Maldito dicionário incompleto. Maldita a parede entristecida. Maldito sentimento de metrô. Maldita aumento da gasolina. Maldito o mundo de tristezas enormes, porque o amor encolhido não dilata esse mundo triste demais. Tudo é triste. E traste.
Sinto o meu coração indo, mas ainda não sei sentir. Num trote prolongado, com minhas pernas cansadas do meio círculo que persegue o retilíneo sonho de quem rescindiu o freio, aprecio o trajeto do açoite. Uma lamúria, uma desgraça, uma ruína. Não sou mais do que um balão de ossos no singular, sentindo o que não sabe sentir pelo resto do mundo. E sinto, ou pelo menos penso sentir, agregado ao que eu suponho ser um sofrimento de amor, o peso da falha entrecortando os meus caminhos. Eu falhei por nós dois, sem nunca ter conhecido plenamente a mim mesmo. Sem nunca ter descoberto o prazer de saber o que sinto. Invejo as árvores que sabem que são árvores, pois sofrido é um humano enraizado no meio da claridade, sofrendo no meio da existência. Invejo também os pássaros, porque a natureza não lhes permitiu o amor lascivo ao ninho abandonado pelo instinto de sobrevivência. Pássaro que sou, nômade que me permito ser, ainda não sei dizer adeus ao galho mais fraco. Ainda amo o que poderia ter me matado, o que me impediria de continuar. E dói. Permanecer vivo é um egoísmo com as renúncias mais sofridas da minha história. Numa hipótese macabra, numa hipótese acalentadora, talvez eu apenas pense que abandonei assim como só penso, iludidamente, que sinto saudade. Mas eu já não sei o que sinto. Eu já não sei o que eu sou. Eu sei sim, olhando para as pegadas de pele morta, o que fui, imaginando o peso da minha matéria bruta como um pintor imagina o som da arte. A dor estanca e o sangue coagula. A vida é que não se cura. Debaixo de toda essa terra infértil impregnada em mim, o cadáver não exala cheiro. Os cupins roeram a minha madeira de tal forma que o superficialismo adquiriu os trejeitos de um homem comum, um homem que ama, um homem que chora, um homem que sabe o que é, um homem que sabe o que sente. Mas a única verdade é que não sei. Já não sei mais sequer de qual dos meus inícios eu fingi que parti.
Engraxate. Lustrando sapatos alheios que pisam nos meus calos. Sempre com uma graxa impecavelmente preta, tirada do fundo do poço, um petróleo raro e sem valor chamado escassez de orgulho. Queixo desabado, narinas que respiram o suor e as meias podres daqueles que viveram antes e viverão melhor depois de mim. Em troca de um trocado de consideração. Já fui engraxate por muitas vezes na vida. Também já tive meus dias de biólogo. Conhecer vários corpos, estudar vários ares, desvendar os mistérios daqueles outros humanos tão meio bichos que tão pouco a humanidade precisava. Uma arara extinção não era mais saborosa de fotografar com olhos saudosos do que um sorriso espontâneo, uma boa vontade, um abraço confortável, uma caridade que não fosse de pão velho e culpa. Estudar a vida dos outros dava pouco dinheiro. Virei político, presidente da República de mal amados. Belos discursos, novos recomeços, amanhãs ensaiados com pura maestria, terno e gravata de pompa e por dentro, um saco de mentiras que só não mal cheirava por causa das boas aparências e da pele intransponível que todos julgavam impecavelmente limpa. Mas só a cara era lavada. A mão assinava contratos fantasmas com a minha própria comunidade. Eu prometo ser sempre feliz. Eu prometo aprender a engolir fantasmas, porque com sal, pimenta, noz moscada e um pouco de boa vontade qualquer medo é tragável. Eu prometo procriar e envelhecer, virar adubo de terra e jamais me render a corrupção. Abandonei os smokings depois das primeiras descobertas de fraude, quando meu nome nunca acabou em nenhuma mídia por tentativa de mudar o mundo. Já tentei ser coisa de criança, quem sabe algum tipo de bombeiro ou policial, mas os meus herois morreram de overdose de matemática, física, química, enrolação. Salvar a vida de alguns miseráveis não me parecia atraente. Tudo seria mais lógico num mundo exato. Longe de promessas, animais e graxas. Longe da vida. Tudo seria mais metricamente perfeito num mundo de raízes quadradas. Vivendo num planeta anaeróbio, onde números e números completariam o espaço entre quatro dígitos de nascimento e os mais esperados dígitos da morte. Tudo é contável e virei o contador da minha própria história. Matemático. Contava as lágrimas na hora da insônia, cumpria meus exercícios intelectuais, jamais me distraí com essas bobagens de sofrimento. Fui feliz ao quadrado, até o dia em que resolvi que o mundo precisava de mim, precisava descobrir a chave da sabedoria numérica. Mas o mundo já tem número demais e um zero a esquerda é só um zero a esquerda. Decepcionado, quis ser professor. Ensinei a mim mesmo com quantas pizzas se faz um domingo de solidão, com quantos meses de gestação minha alma desgraçada entrou no corpo de um bebê que tudo tinha para ser promissor. Ensinei tudo a mim, mas ser aprendiz e mestre dá chance aos erros. Novos rumos, novos anos, novas profissões. Aprender a ignorar. Alcoólatra, bailarino, equilibrista, tudo ao mesmo tempo. Um artista circense dramático como um palhaço, metendo medo em olhares pequenos que ainda tem o mínimo de fé na vida. Um pintor capaz de reproduzir o som do silêncio, em mais profunda ausência de tinta. Um violinista encantador de serpentes cujo veneno eu aproveitava nas sopas diárias de melancolia e autopiedade. Dramaturgo, formado na Academia Brasileira de Artes Inúteis, salvando Julieta para ver morrer Romeu. Egoísmo pelo amor vindouro dos outros. Um contador de absurdos, um lunático, um sociólogo descrente, um mentiroso. Alguém sem experiência, contratado para bicos que não emendam uma torneira de casa. Ninguém se importa com um funcionário atrasado para a própria vida, porque há outros que querem a vaga de permanecer vivendo. Vivendo a minha vida. Mas eu não abro mão das humilhações, de ter que implorar por um crachá que diga que eu sou eu, que trabalho entalhando a minha cara, como um marceneiro de arte abstrata quase incompreensível. Ora brilhante, ora amontoado de carne, ossos e velharia. Eu não abro mão de bater de porta em porta, procurando resquícios de férias e décimo terceiro. Funcionário público de um coração privado. Engraxate, advogado, professor, matemático, filósofo, geólogo, decorador de ambientes, empresário, político, médico, enfermeiro, psicólogo. Cresci sendo. Mas o que eu quero ser quando cansar de crescer?
Não me ames. Não entregues teu coração em mãos que já estraçalharam dores piores e mais frágeis. Não acendas o fósforo do nosso fim, não faças de tudo para me esquecer, não infles uma paixão errônea e desastrada. Esqueças das cobranças de afetos, de cuidados, de abraços, porque a solidão nos uniu. Não ames a mim mais do que eu amo a tua indiferença, o teu desmazelo. Meus calcanhares ainda mostram as ataduras da última vítima que tentou curar meus passos apressados e desacompanhados. Sejas essa vida própria que eu invejo. Essa piada que rimos pela falta de graça, esse mundo do avesso, esse jardim repleto de ervas daninhas. Deixas que o feio cresça entre as nossas flores, não regues a inveja de um jardineiro que não fez vingar absolutamente nada na vida, mas foi feliz enquanto o perfume das mudas sobreviveu. Sejas o meu pequeno frasco. Sejas um veneno doce e feliz, não digas que me ama, porque o amor é morte lenta e sofrida, e se for para sofrer, a minha vida basta. Só a minha. Eu não divido. Não me ames e assopre o nosso beijo como criança que assopra um dente de leão. Sejas a água que mata a sede de outras bocas, mas se me queres, reservas o mergulho e eu me desmancho feito açúcar em água doce. Amor é água salgada. Arde nas minhas cicatrizes expostas. Sejas esse continente sem mapa, jamais me entregues a chave do teu segredo, porque eu engoli a minha antes que alguém soubesse que eu a tinha. Vivas comigo um romance real. Com hora para acabar, mas sem hora para começar. Podemos nos amar a cada minuto, a cada segundo, porque nosso amor dura menos do que uma decepção. Dura menos do que um arrependimento. Podemos nos apaixonar perdidamente em cada passo achado. Pensas em mim por essa noite apenas. Na outra, matas a saudade. Mas na próxima, eu sumirei. Não deixes que a saudade morra, para que a companhia se desfaça. Amor é uma flor regada demais. Não permita que eu me afogue nas raízes. Sejas o pólen que escapa para uma terra menos alagadiça, e floresças por aqui bem perto, se assim quiseres. Mas não me ames. Não admita a submissão que as palavras da eternidade, cobrando uma felicidade egoísta e ditatorial, possam causar em tua morte súbita, bonita e poética. Não me ames hoje, nem amanhã. Mas eu sentirei o teu amor de ontem. Dormido e quente. Eu sentirei o teu amor sem cobranças, eu sentirei a tua alma cansada de não amar, eu sentirei o teu corpo exaurido de saudade. Descansado em mim. Eu sentirei que o nosso amor já não aguenta mais existir, mas que é real. O que importa é ser real. Quando não se ama alguém, não sobra tempo para pensar em não amar. Amor é queda livre. Sejamos livres, enfim. Só te peço uma única condição: não me ames, mas não esqueças de tentar amar. Amor é nossa única tentativa. E o gosto do erro é maravilhoso.
Nenhum segundo a mais no despertador. Nenhum livro novo. Nenhum doce na geladeira. Nenhum sorriso cruzando a rua. Nenhum e-mail. Nenhuma gentileza. Nenhuma mensagem de aniversário. Nenhuma mensagem atrasada de aniversário. Nenhuma piada. Nenhum xingamento. Nenhum elogio. Nenhum barulho de grilo. Nenhum grito de medo. Nenhum acampamento na sala. Nenhuma mensagem no celular. Nenhuma ligação esperada. Nenhuma ligação inesperada. Nenhum aperto de mão sobrando. Nenhum nome faltando. Nenhum pedido atendido. Nenhuma pizza paga. Nenhum drink oferecido. Nenhum sorvete derretido. Nenhuma bochecha corada. Nenhum centavo ganho. Nenhum amor inteiro. Nenhum amor parcelado. Nenhum queixo sujo de brigadeiro. Nenhuma coberta quente. Nenhum sofá com marcas de uso. Nenhum badalar de sinos. Nenhuma nuvem em forma de cavalo no céu. Nenhuma ligação. Nenhum pedido de namoro. Nenhuma escova de dentes fora do pote. Nenhum lápis apontado. Nenhuma sombra. Nenhuma presença. Dias. Noites. Vida. Piloto automático.
De tanto gritar sufocado, minha garganta criou calos. De tantos calos, desfiz os nós das gargalhadas e das palavras de amor. O amor que escrevia rimas bobas e me rimava também. Me fazia menino, me fazia ser descoberta de mim mesmo a cada dia e a cada olhar. E com os anos que matavam-me, eu o perdi. Eu perdi aquele amor de dedicatória na contracapa do livro favorito, de lençol compartilhado, de lágrimas de cócegas e de beijo na testa. Eu perdi e assumi: Estou crescido demais para amar. Odiava o velho e raquítico sentimento que me jogava pedrinhas na janela, atormentando meu sono e congelando no frio do meu desprezo. Ele deveria estar morto, assim como eu me matava por dentro. E alimentei-me de palavras bonitas, de fachada, de seriedade decorada. O clichê era desespero de quem não quis crescer. Mas letras são sempre letras, linhas são sempre linhas, vazios são sempre vazios. Não importa o pulso que escreve ou que sente, nada mudará. E é certo que de dentro da beleza da minha poesia brotava um monstro, um sofredor assíduo. Uma vertente deformada de mim mesmo que cultuei como um Deus, a minha força inatingível. Até te avistar, sentada do outro lado do rio, cantando em olhares e me amando em sorrisos. E tudo o que fiz foi te transformar em busca para me perder por completo. Tudo o que fiz foi descer do trono de fonemas ensurdecedores e colocar o pé na mortalidade dos apaixonados. E morri com fama de tolo. Abri as janelas, libertei as rimas, abandonei a régua, a métrica, a perfeição. Amor não é simetria, amor não é beleza. Amor é deixar-se levar. E deixei… Deixei que me levasse. Deixei que me amasse. E se clichê for eternidade e felicidade, amor e dor, distância e tortura… Eu quero que minhas poesias não valham um tostão, quero que toda a metáfora vá para os diabos. Libertei-me em teus braços, abandonei o velho cinza para ser arco-íris em outro céu. Eu só quero que saiba… Que você, entre tantas obras-primas, é poesia mais perfeita que já escrevi.
Pouca comida é miséria, comer pouco é educação. Feiura no rosto é apenas feio, feiura na tela é irreverência. Lixo é repugnante, lixo moldado é reciclagem. Mulher nua na rua é prostituta, mulher nua na rua segurando um cartaz é protesto. Velho com vitrola é atrasado, jovem com vinil é estilo. Pobre artista é pichador, rico com tinta é gênio. Baile funk é perda de tempo, balada eletrônica é diversão. Ir sem roupa ao shopping é atentado violento ao pudor, ir sem roupa à praia é naturalismo. Milionário usando chinelas é humilde, humilde com chinela é milionário. Cachorro com coleira é fofo, cachorro sem coleira é vira-lata. Sirene em bairro rico é ambulância, sirene em favela é polícia. Estrondo em dia de jogo são fogos de artifício, estrondo em dia de jogo dentro da comunidade são traficantes. Aluno que cola é esperto, aluno que estuda é otário. Mentira dita muitas vezes é verdade, verdade nunca dita é mentira. Solidão aos dezesseis é drama, solidão aos sessenta é necessidade. Cabelo enrolado é cabelo ruim, cabelo liso com babyliss é sexy. Palmada em filho é disciplina, palmada em aluno é caso de notícia. Modelo gorda é inaceitável, modelo magra é pleonasmo. Macaco é racismo, branquelo é apelido. Seios na televisão é apelação, seios na televisão em fevereiro é carnaval. Foto do pé é cafona, foto do pé com efeito de instagram é vintage. Criança magra é desnutrida, criança obesa é descuido. Menino com amigas é gay, meninas com amigos é oferecida. Homem com várias é inspiração, mulher com vários é mal falada. Adotar um bebê é amor, adotar um adolescente é caridade. Palavrão na rua é baixaria, palavrão na música é alternativo. Verde e amarelo é cafonice, torcer pra seleção é patriotismo. Beijar é bom, beijar dois na mesma festa é segredo, beijar outro é traição, beijar ninguém é ser encalhado. Andar de mãos dadas é fofo, andar da mãos dadas com alguém do mesmo sexo é pouca vergonha. Reclamar do governo é legal, fechar a TV no horário político é rotina. Mandar cartas é velharia, receber cartas é romantismo. Não ter filhos é lamentável, optar por não ter filhos é estilo de vida. Xingamento na cama é ousadia, xingamento na mesa é barraco. Criança loira, bem vestida e sozinha está perdida, criança negra, suja e sozinha é assaltante. A fome é um problema mundial, a fome do outro não é problema meu. Bonita e difícil é atraente, bonita e fácil é vagabunda, feia e difícil é burra, feia e fácil é descartável. Bater em mulher é machismo, mulher bater em homem é engraçado. Católico assassino é banalidade, protestante assassino é hipocrisia. Passear no campo é liberdade, morar no campo é falta de dinheiro. Óculos espelhado é horrível, óculos espelhado de marca é moda. Livro de cinquenta reais é caro, uísque de cinquenta reais é festa. Matar um cachorro é desumano, matar um boi é churrasco. Um assassinato é fatalidade, três mil é estatística. Ser ou não ser é Shakespeare, indecisão é defeito. Acreditar no amor é beleza, acreditar em alienígenas é ilusão. Grito na música é rock’n’roll, grito sem ritmo é falta de argumentos. Loucos só passaram a existir quando a normalidade foi inventada, diferenças só não foram aceitas quando alguém tentou ser diferente. Conceitos não mudam realidades, mas realidades mudam conceitos. Pessoas não são palavras, mas palavras formam pessoas. Se é certo que somos produtos do meio, é certo também que somos somente produtos. Indivíduos são matérias-primas em abundância, mas individualidade é artigo de luxo. Rótulo na embalagem é essencial, rótulo em tudo é apenas uma sociedade.