terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Sobre abandonos e sobre amor. Sobra arrependimento e sobra tristeza.


      Eu permaneço estático e inquieto. A mordaça do presente ganhara uma ambivalência cruel. Eu sou tudo e eu sou nada, eu sou grito e sou silêncio. Talvez o nosso passado seja mesmo essa camisa de força toda. Essa necessidade de ouvir o mar através das conchas e colchas, esse absurdo de criar raízes na lacunas dos teus olhos tão preenchidos de monomania. E do futuro, o que vai ser? A infertilidade do meu orgulho abortou toda a seiva que minha memória precisava para manter-te viva no meu peito.
      Os meus dedos doem e sangram em cinza monótono. Sangram num barulho de teclas infernal e superficial. Todos veem a beleza melancólica que do meu sangue brota, mas só tu sabes a sujeira abrigada embaixo das minhas unhas. Todo o medo de ser aquele que esquece, aquele que vê amor na despedida, o chão sem pegadas, o agrotóxico de uma plantação de perfume. Eu não nasci do teu ventre, mas tudo o que sou é teu fruto. Fruto apodrecido e sem açúcar, mas é teu. Toda essa enchurrada de pretéritos imperfeitos impregnados no meu calvário de ser pele solitária.
      Tudo é semente do teu seio, tudo é mapa sem recompensa. O que seria de mim, se o futuro estivesse aqui, quando não dou conta de nascer de mais de um passado? O triste conto da pedra amarrada no pé de um afogado. A água e o pão da vida não me serviriam mais se eu soubesse que, de novo, eu azedaria a felicidade como vinagre. Minha única chance de sobrevivência é ser essa espécie de aberração desmemoriada que não aceita vir ao mundo sem antes passar pelo teu colo. E por isso peço perdão pela situação horrenda em que te coloquei. Amei-te e dei-te a alegria do peito inchado, mas do coração que fertilizamos juntos, nasceu a tristeza que anda, fala, e te abandona.
      Novamente, ambivalência. Eu jurei que daria a vida por você, mas neguei morrer quando o punhal acertou minha consciência, porque minha vida não era e nunca foi o entra e sai de ar nos pulmões e a carne livre de vermes. A minha vida, desde que você me gerou, sempre foi amor. E foi tudo o que pude te oferecer, achando que o fim do amor era a eternidade de dois esqueletos no mesmo caixão. Erro meu. A minha vida sempre foi amor, e eu te dei amor até que o amor em si se esgotasse, mas o esgotamento do amor é saudade. E o resultado é que sou filho do adeus que recusou-se a morrer em teu nome.
      Todo esse arrependimento é claro como Clara é a minha dor. Eu apenas sinto a sua falta. Eu sinto falta daquela camisa de força. Eu sinto falta do futuro que nos foi negado e eu preferi esquecer.
Odeio essa ambivalência de você não estar aqui e eu continuar com o cordão umbilical impresso em tudo o que escrevo. Meu amor por você é toda essa sujeira embaixo das unhas que não escorre junto com o sangue dos meus dedos.

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