sábado, 3 de janeiro de 2015

uma vez, alguém me perguntou se eu não cansava de ser sozinho. é espantoso como as pessoas te esbofeteiam simplesmente pelo fato de se importarem com algo mais exposto que a sua superficialidade atraente. expliquei ao mundo que eu gostava de ser o que eu sou. inclusive, expliquei milhares de vezes tentando me convencer. parei pra pensar no que a expressão "gostar de ser o que é" significava, além, claro, do clichê óbvio e açucarado, ideal pra quando alguma coisa implícito no seu sorriso começa a desmoronar. gostar de ser o que é, pra mim, é se auto satisfazer, numa espécie de masturbação sentimental infinita. a ideia não é muito agradável, claro, mas os hormônios da solidão deixam claro que eu me satisfaço com o mínimo de coisa que não seja propriamente minha. é, pior, além de masturbar os seus sentimentos, você ainda dá uma de cafetão do cérebro alheio. me satisfaço escutando música de terceiros, lendo livros de terceiro, apreciando arte de terceiros, vendo filmes de terceiro, comendo comidas preparadas por terceiros, olhando as estrelas de terceiros, quartos e quintos amantes, amando terceiros. ser só é me apaixonar o tempo inteiro por tudo o que não me pertence, desde as garotas que pegam o mesmo ônibus que eu até os olhos claros de alguém que passa na rua. ser só é se apaixonar por sardas, pintas, rugas, estrias, fios de cabelo branco que nascem em pessoas ainda jovens, sinais, gestos, boca descascada, suor. qualquer coisa que pode ser de qualquer um. eu gosto de ser sozinho, na maioria das vezes. amar de longe é uma companhia sufocada e solidária. mas a gente sabe que dar prazer a si mesmo nem sempre é o bastante. prazer, aliás, nem sempre é o bastante. curtir a minha companhia ofegante e cardíaca nem sempre é o bastante. uma pequena parcela de mim ainda quer decorar a cara de alguém com memórias, desencontros, angústia, amor e coisa do tipo. é fácil, na teoria. chega um certo estágio da solidão, quando ela, infelizmente, vira autossuficiência, que passamos a perceber que a nossa alma age como uma enorme máquina de lavar. você não sabe mais onde é que começa e onde é que termina. tudo é reciclável e reaproveitável. as feridas cicatrizam tão depressa que não há tempo de saber o que nos feriu e, então, não há como esquecer. as lágrimas funcionam como o ácido do nosso estômago quando as ingerimos. não existe meio termo, é só uma reta sem fim. então, nossa alma começa a ficar escura e passar por uma espécie de blackout. ser só é admitir que tudo o que você procura nos outros está exatamente em você, de forma tão explícita que chega quase a ser pornográfico. o que dá medo, porém, é voltar os olhos pra si e descobrir o medo profundo e sombrio que você sente de morrer sozinho, a angústia de nunca se encaixar, o orgulho, que você alimentou durante todos esses anos olhando as dores dos outros, pensando que jamais se repetiria da mesma maneira contigo, justamente porque você sabe que a única agressão é a que você se provoca, pequeno e acoado, medroso, faminto... o medo de olhar pra si e descobrir que não gostamos tanto assim de ser o que somos. amar a solidão é odiar profundamente o fato de sermos sempre sozinhos.

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