terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2000 e sempre

Passei a virada do ano embaixo do chuveiro, agachado, chorando, minúsculo, invisível. Adolescentismo babaca. Senti, pela primeira vez, a dor da dor. Blablabla estou sofrendo, blablabla estou completamente sozinho. Pela primeira vez, acho, senti o que isso significava de verdade. A pressão nos meus órgãos era quase insuportável. Achei que fosse morrer ou então descer pelo ralo. Sem nenhum remédio, sem nenhuma arma, só a tristeza de Renato Russo, quase cocaína. Achei que alguma coisa em mim fosse explodir e sujar a parede. Pensei em ligar pro hospital, mas era mais digno não encher o saco dos enfermeiros com esse tipo de bobagem, até porque ser eu, ser apenas eu, ser completamente eu, foi escolha minha. E uma escolha terrível, diga-se de passagem. Eu poderia ter pulado do escorregador quando mamãe avisou que era perigoso. Mas eu sempre gostei de precipícios maiores, porque nem sei a minha própria profundidade. Eu nem sequer estava no escorregador, aliás. Estava embaixo dele. Agachado, chorando, minúsculo, invisível. Mas claro, com a dignidade de não estar sem roupa. Estava, naquela fatídica virada de ano, embaixo do escorregador, tremendo de medo daquelas pessoas, daqueles sons, daqueles porcos sinistros com maçãs enfiadas na boca. O balanço na casa do meu tio fazia um barulho horrível quando as outras crianças se balançavam. Era realmente terrível. Pior do que os fogos de artifício. Mamãe veio me tirar pra participar da roda de oração e eu me debati no chão, gritei com ela, disse que tudo aquilo era besteira, até que ela quase entortou meu braço e acho que nunca vi os seus olhos tão tristes. Eu era um porre, essa que é a verdade. Até que meu tio, levemente bêbado, foi até lá e me agarrou pelo braço quando eu já tinha me largado de mamãe e planejava correr. Ele disse, enquanto eu permanecia mudo e estático, olhando bem no fundo dos meus olhos:
- Você faz parte dessa família? Me responda se você faz parte dessa família. Se você faz parte dessa família, vai participar dessa oração.
Meu tio sempre cuspia enquanto falava. Eu não sabia o que responder.
Talvez eu não fizesse parte daquela família. Talvez eu fosse só um projeto de gente que se achava adulto demais, talvez mais adulto que meu próprio tio. Eu era o projeto de gente, medroso, que detestava o ano novo porque detestara até então todos os anos de vida que passou. Os momentos mais felizes eu nunca tinha comemorado com ninguém. Eu nunca comemorei anos. Sempre comemorei segundos. Segundos novos. E eu não via sentido em me alegrar por causa de um ano novo. 365 dias era tempo demais. Tempo que incluía os momentos em que senti falta do meu pai, os momentos em que não suportava a carência excessiva da minha mãe, os momentos em que eu ficava agachado embaixo do escorregador com medo de toda aquela gente perceber que eu existia. Com medo do barulho do balanço. Com medo daquela música estranha e com vergonha do meu tio que, por ser sempre tão pacato e amoroso comigo, por sempre dizer que eu era seu sobrinho favorito, eu desconfiava que já não gostasse mais tanto de mim assim.
Aquelas pessoas, aquelas que comemoram o ano novo com muita cerveja e barulho desnecessário, deveriam ser muito tristes. Tristes sim, por se alegrarem tanto em ver um ano sendo jogado fora. Eu sei que, no fundo, ou melhor, na teoria, estavam agradecendo pelas felicidades e dando adeus aos infortúnios que passaram, mas pra mim, não passavam de babacas com o nome sujo na praça. Eu só não sabia disso naquela época. A inocência eram uma coisa que me deixava louco.
Meus segundos prediletos aconteceram
Quando mamãe fazia brigadeiro pra mim e sempre comíamos juntos.
Quando comprava um Mc Lanche Feliz todas às sextas-feiras quando ia ao centro da cidade. 
Quando me parabenizava  por conjugar todos os verbos. 
Quando tentou me colocar numa creche e eu esperneei tanto que ela teve que me levar de volta pra casa.
Quando viajávamos e ela me deixava comer um salgado com coca-cola no café da manhã.
Quando íamos à praia e ela imitava todos os bichos que eu pedia. Quando fazíamos bolos de areia e ela sempre deixava o meu ficar mais bonito. 
Quando tomávamos banhos de piscina e eu ficava admirado com a capacidade dela de não afundar. Sim, mamãe não afundava. Por mais que mergulhasse. Era uma coisa engraçada apertar a barriga dela com toda a força do mundo e ver que mamãe era quase uma boia.
Quando quis imitá-la e boiamos juntos no mar, até que a correnteza nos arrastou e eu vi que não encostava mais o pé no chão. Mamãe se desesperou. As ondas naquele manhã estavam enormes. Nade, vá, nade, nade mais rápido, pegue impulso. Mamãe me empurrava com toda a força que podia e engolia tanta água que entre uma onda e outra eu via um rosto que mais parecia uma grande bola vermelha perdida. Eu também engoli bastante água. Até que veio uma onda gigantesca e nos empurrou mais pra areia. Mamãe nadava nadava apenas com as pernas. Com uma mão, fechava o nariz. Com a outra, tentava me salvar. Já em segurança, na areia, cansados, ofegantes, eu dei uma gargalhada enorme. O rosto dela estava engraçado. Ela tinha o olhar petrificado. Depois, contando a história para os amigos, mamãe disse: "Eu sabia que ia morrer. Eu tinha certeza que ia morrer. Mas eu só ia morrer quando ele se salvasse". Ela cumpriu a promessa anos mais tarde.
(Mamãe, estou salvo. Mas não estou vivo.)
Ninguém nunca comemorou meus segundos favorito. Talvez, eu gostasse dos fogos de artifício se eles realmente comemorasse algo mais significativo do que a porcaria de um número a mais no calendário. Aquilo tudo não fazia sentido, tio. Era só medo, angústia, pessoas estranhas, barulho. Pessoas tristes e estranhas. Pessoas com calcinhas amarelas e vestidos vermelhos. Pobres e sozinhas. Anos não mudam a gente.
Enfim. Dei uma mão para o meu tio, uma mão para a minha prima, fechei a roda e enquanto todos rezavam, eu permanecia com os olhos bem abertos e com uma ruga terrível na testa. Achava tudo aquilo um saco. E sei que mamãe lamentava tudo aquilo. Lamentava por eu ser daquela maneira. É por isso que, repito, não me senti no direito de ligar para os enfermeiros esta noite porque a escolha de ser eu foi completamente minha. 
Naquela noite, coloquei um lençol na cabeça, fingi que dormia e escutei tudo o que minha mãe conversava com titio. 
"Eu não sei, eu realmente não sei o que foi que deu nele essa noite. To tão chateada... Tão chateada mesmo. Meu resto do ano vai ser horrível, ele não tem consideração comigo. Parece um cachorro raivoso. Ele tava distante, tava frio, onde foi que eu errei com ele? Não quis ficar perto da família... Ele não gosta da família dele? Você acha que ele não gosta? E eu sei que ele tá ouvindo isso. Tá fingindo que tá dormindo, mas tá ouvindo. Ele sabe o quanto me deixa triste sendo grosseiro comigo, ele sabe o quanto eu to triste com ele". Titio disse que era coisa da idade. E que eu ia melhorar com o tempo. Disse também que eu estava dormindo, era impossível estar acordado e tão imóvel assim.
Tio, passei a minha vida inteira escutando o que as pessoas diziam que eu era. Imóvel. Quieto. Não era difícil ser a decepção da minha mãe. E saber disso. 
Nunca fui de pedir desculpas. Mas naquela noite, em especial, queria ter pedido desculpas. Estraguei o ano novo dela. Sempre estragava.
Mas eu só queria que também me entendessem: eu não estava comemorando nada. Eu não queria comemorar nada. Eu lamento não ter dito o quanto eu fiquei feliz por comer as coxinhas de frango que estavam na mesa. Eu lamento não ter pedido socorro ao invés de gritar com você, mãe. Mas eu estava assustado. Eu estava, definitivamente, assustado. Com raiva. Do mundo. Desse mundo babaca do qual eu faço parte. Desculpe, estava crescendo. E crescer, crescer assim, sendo eu, me dá sempre uma vontade incontrolável de gritar com todos aqueles que me amam e dizer: "cês tão ficando doidos? Me deixem em paz. Me deixem em paz, mas não me deixem sozinho".
Anos depois, quando [ironia]comemorava[/ironia] o ano novo junto dos meus avós, sendo chato outra vez, me despedi dos meus amigos quando deu meia-noite e subi para o apartamento sem dizer uma palavra. Vovó apareceu extremamente doída. Passou janeiro inteiro sem falar comigo direito. Era mais que meia-noite, todo mundo me procurava, e eu estava ali. Sozinho. De pijama. No décimo quinto sono.
Naquela altura do campeonato, eu já tinha ouvido falar de um negócio chamado hipocrisia. 
Escapei da oração. Escapei dos abraços hipócritas. Mas magoei minha família. Eu lamento, porque sei que família é um negócio sublime, mas eu sou egoísta, egocêntrico, narcisista e covarde. E eu, eu, sou meu sangue, minha carne, minha vida, minhas pernas, meu ser.
Eu gosto de me satisfazer. E por causa disso, exatamente por causa disso, não desejei um próspero ano novo pra ninguém. Porque a única coisa que eu queria era que aquela música estúpida parasse. E só.
Eu sei, vovó, que a senhora acha que eu não sou grato por tudo o que já fez por mim. Eu nunca disse que sou grato. Na verdade, eu sou. Mas não sei dizer. E sei que a se a senhora for embora também, eu vou sentir sua falta e vou me arrepender por todas as vezes em que te neguei um abraço, do mesmo modo em que até hoje sinto a sobrecarga de carinho que neguei à minha mãe furando a minha carne e formando um vazio gigantesco, maior até do que a própria saudade. 
Agradeço e comemoro, todos os dias, pelas vezes em que você foi na escola falar com a minha professora e dizer que eu não ia apresentar porcaria de trabalho nenhum, porque eu tinha vergonha. 
O alívio que eu sentia cada vez que não precisava falar em público. Falar com ninguém. 
Agradeço e comemoro, sempre, pelas vezes em que você me deixou levar sanduíche no dia da fruta, e ia lá no colégio falar novamente com a professora e explicar que eu comia fruta nenhuma. A professora sempre explicava que alimentação saudável era importante e você dizia: "Se meu neto não quer comer maça, ele não vai comer a droga da maçã".
Eu sempre gostei quando você escrevia bilhetes dizendo que eu não ia participar do banho de piscina porque não gostava de interagir com os outros alunos.
Você me protegeu. O máximo que pôde.
Eu estou vivo, vovó. Mas não estou seguro.
Meus segundos favoritos não existem mais. Ou melhor, não penso mais neles. Não agora.
Todo o meu corpo está doendo. Sinto uma solidão enorme.
É o primeiro ano novo que passo completamente sozinho. A música estúpida está cada vez mais distante. Não tem televisão alguma por aqui. Só os fogos, mas acho que meus ouvidos enrugaram junto com meus dedos.
As mensagens que eu gostaria de receber, não recebi.
Não tem balanço, não tem escorregador, não tem gente de branco, não tem calcinha amarela, não tem o meu tio levemente alcoolizado, não tem amigo, não tem amor, não tem saudade.
Minha avó me chamou pra ver os fogos. Subi, gritei com ela, desci. Ela já não sabe mais o que fazer comigo.
E, pela primeira vez, sinto a dor da minha dor. Não tem mais canto pra que eu fuja. Não tem mais colo que sirva. Não tem mais ninguém. Não tem mais ninguém que queira me dar um abraço pra que eu possa dizer: "ano novo é um saco, eu não vou abraçar ninguém", e voltar pro meu quarto, morto de satisfeito por essa droga de ano já ter acabado. Não tem mais. Não tem mais nada. Sinto a dor da minha tristeza. Meus órgãos estão se afogando. 
Sinto o peso de ter escolhido ser eu. E sinto muito, eu juro que sinto muito.

Feliz 2014.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Lembra de mim quando as coisas não estiverem boas.
Lembra de mim quando pedir às traças para curar os seus machucados e trocar as suas ataduras.
Quando você esquecer de abrir a janela, me culpe.
Quando você economizar sua saliva por cinco minutos. E chorar.
Acho que é uma cena oportuna pra me esquecer. Portanto, não perca tempo.
Tenho uma coisa pra te falar sobre o passado: ele te trai.
Então, lembra de mim antes que
Antes que meus olhos sequem
Antes que minhas mãos tremam
Antes que a minha voz acabe.
Antes que eu desista dos clichês, das rimas pobres e do ouvido intelectual demais.
Antes que eu termine de me destruir. Ainda falta um espaço aqui, eu deixei a melhor parte pra você.
Me guardei no frio pra que a carne não estragasse nesse mormaço eterno da solidão.
Não queima, não congela, mas resfria, e adoece.
Lembra de mim quando a chacina não te comover mais. Eu acho que apaguei do mapa todas as suas pegadas.
E se enciume do seu choro.
Eu acho que já dancei com quase todas as suas mágoas. Elas sabem todos os meus passos.
Pergunte aonde diabos eu me perdi na arte. E se puder, me conte.
O que me intriga, certamente, é dizer pra todo mundo que te superei, contar nos dedos e na alma todas as contusões e fraturas expostas, todas as desistências, as fugas, os remorsos, as linhas, e rir, como quem se orgulha de uma aventura qualquer. Quase morrer, o que me importa, se nunca morri?
E só se morre uma vez. Só se morre uma vez. Eu acho.
Seu amor é um leve desmaio. Fingido.
Acordo, respiro, choro, silencio. Só.
Me contento com os segredos que você desenhou entre as minhas vírgulas.
As minhas pausas que ainda não sei se serão finais. Ou começos.
Isso tudo me dá ânsia de vômito, você sabe. É nojento, é sádico, é cruel, é desumano e inescrupuloso. Eu deveria ter vergonha.
Mas eu só tenho remédios pra dormir. Você quer?
Lembra de mim quando olhar no espelho e só lembrar de disfarçar as olheiras roxas. Sei o quanto você se distraí adocicando os olhos com um colírio especial de lágrimas superficiais.
Seus olhos ficam lindos quando estão vermelhos, inclusive. Parecem banhados em próprio sangue.
Suicídio poético e adulterado.
Sei também do seu sentimento de perda. Mas você nunca vai saber.
Nunca vai saber que me perdeu. Eu prometo.
Porque tenho pra mim que ainda vou voltar todas as vezes em que você quiser… Sei lá, abrir as janelas, talvez. Chorar comigo, também. Observar a chuva e gostar de ser triste, por achar bonito que o céu nos mande pro inferno.
E eu sei que somos pulmões enormes tragando toda a fumaça do mundo.
E pulmões não se reconstituem tão fácil assim. Morrem antes mesmo de saber que estão matando.
Lembra de mim quando quiser, aliás.
As coisas nunca mais foram tão boas, tão simples, tão bonitas assim. Você sabe.
Eu estou feliz.
Você está feliz.
E nem eu e nem você sabemos o que é felicidade ainda.
Mas se quer saber, machuca. Não, você não quer saber.
Não tenho ninguém pra ligar no fim do dia e dizer:
“Droga. Volta, que eu to com saudade. Me perdoa, por favor, me perdoa, me perdoa.”
Traduzindo: nada. Deixa pra lá.
Lembra de mim. Só isso.
Antes que seja tarde demais, e o amor seja tédio.
Antes que surja a primeira estrela no céu
E a última dor na Terra.
Só lembra de mim.
Pro mapa-múndi não ser tão grande.
E pras estradas ainda fazerem sentido.
E se quiser voltar, volta.
Talvez eu deixe um bilhete pra você.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Zumbi.

Eu juro que só queria escutar o barulho que o seu sangue faria. Uma, duas, três vezes. Ou quatro, no máximo.
Mas sua respiração apodrece dentro das minhas dores. Dentro do meu corpo cheio de ácido e órgãos afogados. Eu te mato, te venço, te enfio dentro de um contrabando e te como a liberdade, mas o seu cadáver, ou o seu exoesqueleto, ou o seu metal barato e enferrujado, é o que contamina as águas da minha tristeza. Minhas lágrimas de vitória são podres, inaproveitáveis. Te esquecer foi um ato de extrema aflição, mas nada me construiu mais do que as minhas antigas derrotas. Minha base é inteira construída em cima de um cemitério de cicatrizes. Antigas cicatrizes que ainda ardem.
Cicatrizes ridiculamente zumbis.
Sou construído e edificado em cima do meu próprio nada. Deixo a troca de dor como sacrifício à vida e tento, eu juro que tento, não ter tanto medo assim de quem me diz adeus, porque até hoje o que me ficou foram espaços vazios e uma solidão que pede socorro. Nada que eu precise temer. Nada que eu já não conheça. Eu quis reinventar o modo de ser o que sou, porque já não queria mais a fraqueza e os cortes que faço em mim mesmo. Mas o ser humano perde muito por acreditar nos próximos tijolos e numa fachada florida. O terreno fede e é teu.
O futuro, na verdade, é macabro. É triste.
Eu queria ver seus olhos sendo comidos pelos vermes que eu alimentei e batizei como se fossem carne da minha carne. E são. Amor a gente dá às mazelas da gente, porque amor também damos ao que se cria.
Então, te amo como quem ama o próprio câncer. Parte de mim.
Você.
Você é o tumor maligno que mantém meu corpo furado, meu peito fraco, meus pulmões perderem o desejo diante do oxigênio. Você é a doença que me arranca o amor próprio. O espelho me odeia, porque sou tudo aquilo que não se reflete. E você sabe que eu poderia muito bem me livrar de você, de uma só vez.
Eu poderia me curar do câncer.
Desligariam todos os aparelhos, as culpas, as penas, os remorsos, as saudades, os sofrimentos.
Acabariam com você.
E eu morreria.
Então, meu amor, você é a droga do parasita que me mantém respirando.
Trate de me matar direito.
Porque eu preciso de você.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

João gostava de poesia. Aprendeu com as dores, as cores, os amores, os sabores. Depois aprendeu a rimar o pão com a solidão e aprendeu, precocemente, a se alimentar da própria carne, porque João é um nome por si só extremamente poético, achava. João sabia, de cor de salteado, todas as metáforas usadas por Álvares de Azevedo, Gullar, Camões, Quintana, Vinícius, um pouco de Clarice e Drummond. Ah, Drummond, seu diabo. As questões de literatura, aquelas mais difíceis da prova, João acertava sem nem titubear.

"amor
é fogo que arde sem se ver
é ferida que dói e não se sente”

João apertou todas as cicatrizes da vida, e viu um sangue brotar do que deveria ser só uma espalmada ilusão. Não tem jeito. João queria se apaixonar por um vaso grego, voltar pro pombal. A maior parte das poesias que João já leu na vida falava sobre um amor bonito, sublime, puro, por vezes sofrido, mas tão distante. João deixou a barba crescer, passou a pentear o cabelo pra trás, usou roupa bacana e disse pra si mesmo: “Eu ainda vou amar alguém assim.” Viveu os anos 2000 bestializado. Escreveu no seu diário: 01/2000 - “Gente passou a comer gente, sem escovar os dentes. E o coração.”

Na pré-escola, João achava a professora muito bonita. Certa vez, ela disse pra João: Vai, João, ser gente na vida.
João passou a escrever bilhetes que nunca mostrava pra ninguém. Nem pra melhor amiga, Clarice.
Talvez se Clarice tivesse lido, anos mais tarde, ela teria entendido o motivo de João não gostar que ela falasse dos namorados.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

Quando entrou no ensino médio, João conheceu Laura, uma garota dos cabelos cacheados, pretos e curtos que faria Shakespeare desaprender a sonetar e cortar o liso pálido de Julieta. Via Laura de longe, com seus livros e seus óculos engraçados. Nunca soube o nome dela. Mas gostava de chamá-la de Laura, e motivo ninguém nunca vai saber. Mas João acreditava que era Laura, e porque acreditava, Laura existia.
João ia às aulas que Laura frequentava e sentava sempre três cadeiras atrás, tentava desenhar o rosto dela na cadeira e dava não mais que quatro suspiros, com medo de Laura, por azar, notar.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

No meio da rua, quando estava bêbado e sem um tostão furado, uma prostituta passou usando um vestido vermelho escarlate. Ela disse, com uma voz ofegante:
- Ei, benzinho, tem fogo?
- Fogo é amor que dói e não se vê.
- Camões está meio embaralhado aí, benzinho.
- Ei, você conhece, Camões?
- Tem fogo ou não tem, doçura?
João não respondeu e ela foi embora, rebolando tristemente. Olhos tristes, cabisbaixos, gelados. Queria que ela tivesse ficado. Queria que ela tivesse falando “benzinho” mais uma vez. João não fumava. Mas desde esse dia, andava com um isqueiro no bolso.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

O amigo de João disse que estava pegando uma loira gostosa. João respondeu: “Cara, isso é jeito de falar! Quero ver quando você começar a amar de verdade”. O amigo de João deu três tapas na mesa, pagou o uísque de todo mundo, deu um último gole e disse: “João, foi bom te ver. Agora tenho que encontrar a minha gata.” João nunca tinha visto aquele idiota tão feliz.
“Eu ainda vou amar alguém assim”

João acabou traído na terceira namorada. Disse pra si mesmo: “Não, eu nunca amei essa vagabunda. Não pode ser amor, não pode!” Apagou todas as fotos do computador, num apertar de teclas catastroficamente bruto, e lembrou-se de amar baixinho e disse, chorando: Merda. Mas eu ainda vou amar alguém assim.

João, descrente, olhava para todos os casais na rua e se perguntava se já tinham filhos, quantas brigas tiveram, como se conheceram, se eram amantes ou namorados, se a família aceitava ou era namorico escondido.
Gente besta. Gente jovem besta. Se apaixona pela primeira que vê na rua.
[Passou a garçonete. João olhou pras pernas dela.]
Gente que não sabe amar.

Mas João esperava pela pessoa certa. João esperava pelo amor de Vinícius. Esperava fazer a besteira de tatuar o nome de alguém sem precisar de tinta. João dizia: Amor não pode ser isso. Não pode ser algo tão banal. O que foi que aconteceu com a poesia, o lirismo, o romantismo, o mundo? Onde eu me perdi?
Do que valem as notas de literatura?
Do que valem as vanguardas europeias?
Do que vale o amor de pedestal?
Do que vale a musa que morre no céu?
O que significa amar o que não existe?
João não sabia responder. Que se dane a estrutura poética e a biografia boêmia de sabe Deus quem, professora filha da mãe. Poesia nunca fez sentido. Nunca valeu uma nota.

João sorriu. E, ironicamente, os amigos de João hoje dizem: “João morreu do coração.”
Morreu enfartado. Jurando que nunca amou ninguém em sua melancólica e sem graça existência, sem saber que amor era justamente o seu próprio dia a dia. Segundos. Milésimos. João amou o tempo inteiro.
Pobre coitado.

E agora, João?

sábado, 21 de setembro de 2013


Fica e faz de conta.



Posso colocar a lanterna na testa esta noite. Posso recomeçar a minha coleção de canetas e destruir aquele mostruário de moedas antigas que guardo na gaveta. Posso dizer que li Maquiavel e dormir na metade do livro, posso fingir que o sangue das estrelas é a noite e que eu prefiro a luz do dia. Posso dizer, novamente, que não sei o motivo das pessoas ficarem tão tristes e sentirem tanta pena do que não é da conta delas. Posso engolir minhas virtudes e perguntar o motivo de alguém dizer bom dia no elevador… Tem gente que deveria se importar menos e apertar todos os botões. Eu também poderia começar dizendo que eu tenho muita coisa pra falar e não sei por onde começar. Mas a verdade é que eu sei sim e me guardo no direito de começar te mandando por inferno. Vamos pular essa parte, o que você acha? O inferno é exatamente bem aqui. Que você saiba que eu soprei minhas velas e desejei que o céu fosse um pouco menor do que parecia. Aquela infinitude era sombra pras minhas falhas e pra minha solidão. Falando em velas, meu aniversário é em agosto. Sou leonino, temo que você saiba. Temo ter rasgado e comido a sua alma como eu faria com uma caça. As árvores de casa estão sem poda, mas se eu podasse, Brasília seria um plano passarinho na frente da minha vontade que você pouse aqui. Conservo o porão do meu corpo, com medo de jogar essas tuas tralhas foras. Teu ouro, teu cheiro, tuas ervas, tua barba mesquinha, tua farda que não foi passada naquela manhã. Velho, teus documentos têm cheiro de sangue. Meu cordão umbilical tá no papel, tem nome, tem sobrenome, e sente a sua falta. Vem cá e corta, se você é mesmo homem. Vem cá e me olha, faz de conta que eu sou teu braço direito e esquerdo, que eu sou essa elefantíase sem cura e que eu te cresci e amadureci o coração. Finge, ao menos uma vez na droga dessa tua vida, que você saiu e foi comprar cigarros. Eu quero te dizer que espero que você acorde desse pesadelo molhado e case com a sua garota. Comece tua vida. Mas por favor, começa sem mim. Não vou chegar cedo nesse teu destino infalível, e não quero avisar. Talvez eu nunca chegue e você chore quando escutar um outro choro irritante e exagerado. Ei, velho, admiro você. Admiro mesmo você. Tenho medo que essa admiração acabe quando eu tomar vergonha na cara e seguir os conselhos de quem tem experiência em te abandonar. Ou tinha. Ou fingia que tinha. Tudo tem gosto de cemitério entre a gente, você já percebeu? Espero que todas as minhas cinzas sejam parte do seu misto quente. Que minha tristeza salpique e que a gente se atraia. Quero te dizer que senti orgulho de mim mesmo porque alguma coisa sua ficou embaixo da cama. E quer saber? Eu não olhei. Eu adormeci mesmo assim, tremendo, suando, chorando, gritando, mas eu não olhei. Eu não quis acreditar em você, quando a casa ficou escura demais pra um garoto que já saiu do útero do teu sonífero querendo dominar o mundo. O mundo que não é teu, adianto. O mundo que me ralou, me emocionou e me fez muito feliz. Eu quero te dizer, inclusive, que não decorei as poesias de hoje. Que escrevi nas paredes do meu quarto, uma vez, que eu não queria que você tivesse ido embora. Em outras palavras, claro. Nunca fui tão óbvio assim. As nuvens adquirem várias formas e é assim que você e me é. Indefinível feito a droga de uma nuvem, que chove e vai embora pra outro continente, conhecer gente mais legal, inundar e salvar a vida do povo Africano e depois morrer no melhor túmulo que alguém poderia querer. E no mais irônico também. Você morre nos meus braços e na minha pneumonia, porque eu só gosto da chuva quando eu estou dentro dela. Sofrendo. E eu sei que você não tem forças pra ir até a África, mas eu deixo você agonizar aqui perto, eu faço de você o meu herói. O trato é esse: Você chega aqui e corta no meio dos meus dedos. Ou então quebra a droga dos meus dedos mesmo e calcifica a nossa inimizade. A nossa estranheza. Só que o teu toque me faria sarar de tanta coisa, ah, você nem imagina. Tua cantiga seria melhor que um sanguessuga no tempo em que o sangue doente das pessoas precisava alimentar uma outra criatura nojenta. Parece bem com a nossa história, mas os dois morreriam. Nada mal pra dois estranhos, hum? Nada mal. Relação estranha de esclavagismo, essa é a verdade. Eu não olhei pros monstros essa noite com medo de me ver em alguns deles. Malditos olhos castanhos que podem ser de qualquer um, menos teus. Mas fica e faz de conta, seu babaca, faz de conta que você me ama. Fica, se você tem punhos firmes e palavra de honra. Porque eu não tenho mais coragem de acreditar.

- Alô?

- Filho, eu estou voltando pra casa hoje. Como você está?

- Pai?

- Desculpe, número errado.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

"Aqui está, de modo totalmente provisório, um primeiro exemplo. Em todos os tempos se quis "melhorar" os homens: é isso que, antes de tudo, foi chamada moal. Mas sob esta mesma palavra " moral" se ocultam as tendências mais diversas. A domesticação do animal humano, bem como a crianção de uma espécie determinada de homens, são um "melhoramento": esses termos zoológicos exprimem unicamente realidades - mas essas são realidades de que o melhorador-tipo, o sacerdote, não sabe nada de fato - de que não quer nada saber... Chamar "melhoramento" a domesticação de um animal soa a nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Quem sabe o que acontece nos estábulos, duvido muito que o animal seja neles "melhorado". É debilitado, é tornado menos perigoso, pelo sentimento depressivo do medo, pela dor e pelas feridas se faz dele um animal doente. - Não acontece outra coisa com o homem domesticado, que o sacerdote tornou "melhor". Nos primeiros tempos da Idade Média, quando a Igreja era acima de tudo um estábulo, em toda parte eram selecionados os belos exemplares do "animal "louro" - era "melhorado", por exemplo, os nobres germânicos. Mas qual era, depois disso, o aspecto de um desses germânicos tornado "melhor" e atirado num convento? Tinha a aparência de uma caricatura de homem, de um aborto: haviam feito dele um "pecador", estava enjaulado, havia sido encerrado no meio das ideias mais espantosas... Deitado, dente, miserável, aborrecia-se a si mesmo; estava cheio de ódio contra os instintos de vida, cheio de desconfiança em relação a tudo o que permanecia ainda forte e feliz. Numa palavra, era "cristão"... Para falar em termos fisiológicos: na luta com o animal, torná-lo doente é talvez o único meio de enfraquecê-lo. A Igreja compreendeu isso perfeitamente: ela perverteu o homem, tornou-o fraco - mas ela reivindicou o mérito de tê-lo tornado "melhor"."

Nietzsche

Como não amar esse homem?