terça-feira, 7 de maio de 2013

Eu ando sem paciência pro mundo. Rastejo, talvez. Não me importa mais se a caneta cai embaixo da cama porque ela continuará ali. Mantenho meus joelhos esticados em cima da cama. Não me importa mais o furo na carteira, o espelho fora do lugar, a mochila jogada em algum universo paralelo. As moedas atrás do sofá já formaram um real, e as cédulas foram pra máquina de lavar. A pasta juntou poeira. A lixeira anda cheia de papéis, quase como um porta-joias que pra mim, só pra mim, perderam o valor, enchendo as baratas com a poesia que perdi a vontade de apagar. Não me importa se faz frio, calor, se a janela fica aberta em dia de chuva, se como frango ou como peixe. O relógio ainda está atrasado. Ou adiantado, porque não lembro qual foi a última hora que me interessou. A folha do calendário ainda não foi rasgada, por mim ainda estaríamos em janeiro de um ano promissor. O marcador laranja daquele livro ainda está fincado no prefácio. Eu não entendo as piadas, não troquei as pilhas do controle remoto, não quis saber o que tinha na geladeira, não cumprimentei o rapaz que trabalha no caixa da padaria. Ele também esqueceu de sorrir pra mim. E eu esqueci de reclamar. O troco ficou com ele. De novo. O dinheiro que me pediram emprestado eu nunca liguei de cobrar. A música que parei na metade ainda não teve tempo de terminar. As maçãs do rosto apodreceram, eu sorrio sem pensar. Sorriso quebrado… E eu sem tempo pra consertar. Eu confundo mocinho com vilão, eu nunca mais assisti televisão. Eu não sei do que as pessoas falam e também já não sei o que falar. Eu não sei das pessoas, porque as pessoas não sabem de mim. Ou nunca souberam e eu não quis me importar. O celular tem três novas mensagens, mas foi um plano que eu esqueci de cancelar. Cansei de pegar o mesmo caminho de volta pra casa. Meu retorno não tem becos, mas não tem saída. Nunca teve um ladrão pra me assaltar. Talvez assim eu tivesse morrido, sem que eu implorasse pra alguém me matar. Mas eu não quero morrer. Eu nunca quis saber desse negócio de morrer, aliás. Eu não tenho paciência pra velório, eu nunca sei o que usar.
A esperança decai, a fé se vai, os sonhos não existem mais e o futuro parece sumir pouco a pouco. As cicatrizes estão por toda a sua alma, o pôr-do-sol acontece, a escuridão toma conta. seus olhos estão banhados de lágrimas, perdeste o teu abrigo. Um arrepio te alerta. Sai às ruas, a guerra é tudo o que vê. E você se vê em combate sem nenhuma camuflagem, como um iraquiano segurando a bandeira estrelada. A única sensação é a de dor, o único alívio e pesadelo é a morte. As pessoas te machucam, você evita esparadrapos. Os relógio param, o tempo não sofre mais. Nada faz sentido. Agora tens medo… Medo do que nunca acontecerá. A decadência parece inevitável, fugir dela tornou-se loucura e desprazer. As estradas sumiram e tudo continua escuro, as estradas encurtaram-se e musgos enfeitam o teu jardim. O sofrimento é o teu único sentimento puro, o único que não afogou-se em whisky. A ordem para o teu extermínio já foi nada, é questão de tempo. Intrigante, pois este já não faz sentido. E sentado na beira do precipício, tu pensas que tudo poderia ter sido diferente. Poderia e não foi por falta de poder. Poder sobre si mesmo. O doce sabor da derrota parece te alegrar. Decerto o fracasso não poderia ser tão amargo quanto nos livros de perdedores. A vida te acolheu, mas foi você que encolheu. E mesmo abandonado, mesmo maltrapilho e sujo com a lama do pântano mais repudiante, tu comemoras. O fim está próximo, eu posso sentir. Tu não tens direito a um último pedido. Espere. Deite os olhos devagar e sinta seu corpo formigar. Por fim, sua alma vem a morrer. As lágrimas extravasam, silenciosamente. Elas tocam seu coração, mas aprendeste que onde há pedra não entra água. Prepara a caneta, solte as rimas, molhe o papel. Comece o teu renascer em epitáfio. Seus pulsos estão cortados. O sangue escorre. E você, como tudo o que tem vida, morre.

O céu não é quadrado como na televisão.

Eu ando sem paciência pro mundo. Rastejo, talvez. Não me importa mais se a caneta cai embaixo da cama porque ela continuará ali. Mantenho meus joelhos esticados em cima da cama. Não me importa mais o furo na carteira, o espelho fora do lugar, a mochila jogada em algum universo paralelo. As moedas atrás do sofá já formaram um real, e as cédulas foram pra máquina de lavar. A pasta juntou poeira. A lixeira anda cheia de papéis, quase como um porta-joias que pra mim, só pra mim, perderam o valor, enchendo as baratas com a poesia que perdi a vontade de apagar. Não me importa se faz frio, calor, se a janela fica aberta em dia de chuva, se como frango ou como peixe. O relógio ainda está atrasado. Ou adiantado, porque não lembro qual foi a última hora que me interessou. A folha do calendário ainda não foi rasgada, por mim ainda estaríamos em janeiro de um ano promissor. O marcador laranja daquele livro ainda está fincado no prefácio. Eu não entendo as piadas, não troquei as pilhas do controle remoto, não quis saber o que tinha na geladeira, não cumprimentei o rapaz que trabalha no caixa da padaria. Ele também esqueceu de sorrir pra mim. E eu esqueci de reclamar. O troco ficou com ele. De novo. O dinheiro que me pediram emprestado eu nunca liguei de cobrar. A música que parei na metade ainda não teve tempo de terminar. As maçãs do rosto apodreceram, eu sorrio sem pensar. Sorriso quebrado… E eu sem tempo pra consertar. Eu confundo mocinho com vilão, eu nunca mais assisti televisão. Eu não sei do que as pessoas falam e também já não sei o que falar. Eu não sei das pessoas, porque as pessoas não sabem de mim. Ou nunca souberam e eu não quis me importar. O celular tem três novas mensagens, mas foi um plano que eu esqueci de cancelar. Cansei de pegar o mesmo caminho de volta pra casa. Meu retorno não tem becos, mas não tem saída. Nunca teve um ladrão pra me assaltar. Talvez assim eu tivesse morrido, sem que eu implorasse pra alguém me matar. Mas eu não quero morrer. Eu nunca quis saber desse negócio de morrer, aliás. Eu não tenho paciência pra velório, eu nunca sei o que usar
Suponho que sonho tristonho e me ponho a chorar. Lado transviado, meu fardo é ser viciado em amar. Vida mal vivida, sofrida, corrida em bolor. Passa e traça a caça, a raça é couraça contra a dor. Mágico, enérgico, litúrgico, trágico e só. Eu sou matreiro, faceiro, primeiro guerreiro sem dó. Cismo com fascismo, racismo, nazismo e algo além. Eu sou ateu, fariseu, plebeu, meu, teu, e de mais ninguém.
Encontrar suicídio em uma gota d’água quando ainda se tem um oceano inteiro pela frente. A língua ensanguentada pelo veneno ácido que escorreu do furo nos teus olhos, do vazamento da tua tristeza encardida com meus passos. Você vai, pingando chuva, chuva desafinada, água sem maestro. Você vai feito furacão, arrancando minhas raízes que só sugam a seiva do medo, do meu próprio medo, que fotossintetizam a luz que vem do outro lado da solidão. Você vai e você vem, num rodopio macabro, numa insensatez dolorida. Você vai e você nunca foi. Ou você foi e nunca voltou. Mas não voltes, pois da borracha quase nada sobrou. Não suportaria uma volta que desse nós de novo. Determinados passados não anseiam lágrimas de saudade para que do túmulo brotem ainda mais vermes. As voltas que quero são de cordas, as voltas que dão nós, o nó da corda amarrada no meu pescoço. Se um suicida eu fosse, tu serias a faca cega, a arma sem tiro, o cesto sem cobra, o banco que me mantém ainda respirando. Tu serias a frustração de um desenganado, mas como covarde eu sou, tu permaneces sendo a confissão de um mentiroso. E você vai advogando-me pouco a pouco, sentenciando-me a uma nova chance com um novo amor, com uma nova vida, sem saber que sou culpado confesso. Que quero grades, que quero a liberdade de uma clausura sem visitas. A visita que aceito é a do tempo, que me arrancará fios de barbas brancas, que reduzirá a minha vitalidade ao pó, que surge melhor como veneno do que como cura para os solitários da vida. Eu não sou nada sem você, mas ao menos o nada me preenche mais do que uma morte precoce por ser tudo… Tudo o que eu poderia ter sido pra você, e não fui. Tudo o que eu poderia ter vivido ao seu lado. As coisas que eu não dou conta de viver por contra própria. O amor, a doação, a cumplicidade, a vontade de sangrar e procurar farmácias. A vontade de esconder as tesouras e as facas nas gavetas mais profundas daquele que te esconde da morte. Você é minha sentença e o meu perdão. Não voltes, porque se o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, a felicidade não atinge duas vezes o mesmo tolo. Eu sou a carne que ocupa o lugar de uma poesia triste no espaço. Sem final.
Falecimentos bizarros acontecem todos os dias. Alguns engasgam-se com tampas de caneta, outros jogam-se dos parapeitos de edifícios sem que antes seus problemas tenham completado quinze anos. O que a morte proporciona? Paz, certos pessimistas dizem. Mas e quanto aos suicidas e políticos? Ah, estes demônios não terão perdão e nem privilégios. Que o inferno seja-lhes suficientemente confortável. Não é o que dizem? Ora, controvérsias extremas. Há também os mais vividos que garantem que a morte nada mais é que uma vida eterna, um prologamento da carne em espírito. Mas se é morte, não pode respirar. Se é morte, não pode ser alegre. E a vida também é feita de sorrisos. Os que dizem viver em lágrimas de luto são minimamente iniciantes na hipocrisia. Se a morte for sorridente, decerto há um velho milionário com familiares derramando prantos crocodilianos. Em mesas de bares, morte é esquecimento. Esqueci-me então de dizer que saudades também fica. Mas se é saudade e esquecimento, não pode ficar. Eu discordo também dos que dizem que morrer é reduzir-se ao pó. O que somos além de poeira colada com poesia? O túmulo só nos é útil quando não queremos mais que os ventos nos despedacem. Perdi as contas de quantos de mim já se foram, levados pela brisa da desistência. Com certeza, a morte é a mais sublime das rendições. Ah, lembrei-me de outra definição… A morte é única certeza da vida. Pois eu não tenho certeza de nada. Ninguém que está morto volta para dizer se morreu de verdade. Talvez estejamos todos vivendo um grande sonho ou pesadelo em que morrer se resuma ao abrir das pestanas. E todos os grandes mercenários digam que a morte existe como uma coisa ruim, apenas para que não queiramos acordar também. Talvez a vida seja um imposto. Um monstro invisível quer nossos sofrimentos, nossas lamúrias, nossos ideais. Talvez alguém nos devore e nos sugue pouco a pouco, até não termos mais nada para oferecer. E o que nos dão em troca são flores, velas e um crucifixo. Se a morte é ruim, eu não sei. Se a morte é maravilhosa, eu tenho minhas dúvidas. Mas que conheçam-me como um suicida, que eu ofereça a minha vida em holocausto. Antes que o véu negro cubra a minha face, eu tenho um último pedido, se é que meu último pedido não seja o primeiro: Se possível for e se o teu veneno me sobrar, eu quero morrer de amor.
O ácido e as pessoas em excesso me fazem ter ânsia de vômito. Olhos perdidos e multidões cansadas, cadáveres muito bem perfumados e aprumados. Ela tem cabelos derretidos e boca pintada. Ele tem cultura de televisão e amor de prostituta. Odeio a juventude, as gargalhadas, o cheiro de álcool escondido na bolsa e o hálito de cigarro barato. Talvez as minhas veias apodreceram antes de mim. A felicidade e a longevidade dos poucos anos abandonaram-me e hoje me deixo levar pelo nojo que sinto da idade que afirma a certidão de nascimento. Morri cedo de desgosto em um asilo qualquer. Vírginia dá gritos de gralha pela maldita unha quebrada, Ricardo combina a próxima festa e planeja pegar dinheiro do pai enquanto o velho médico pensa que investe no futuro do filho medíocre. Envelheço mais dez anos e Virgínia está na mesa do bar, queixando-se do trabalho miserável para o garçom galã expulso de casa ao ser descoberto pegando as joias da família para comprar drogas, como se a própria vida já não entorpecesse suficientemente o mal caráter de Ricardo. A consciência grita em rugas desprezadas, a adolescência repugnante que bate em pontas de faca. A ditadura do rímel e do tênis de marca. Até os verbos irritam-me. Anime-se, dance, ame, beije, compre, fale, divirta-se. E quando os sorrisos forçados lhes são negados, a melancolia de esquina roubam-lhe os pulsos ensanguentados com tinta. Ninguém os ama, o dinheiro não é suficiente, a namorada não é a mais bonita e a popularidade afundou. Futilidade decadente e previsível. E fico aqui pensando, matutando… Nem para serem tristes os malditos vermes maquiados servem. Estavam todos certos. Sou estranho, monótono e desprezível. E as palavras também cansaram de minha velhice precoce. Esta porcaria não era para ser comovente ou revolucionária, pois os olhos que me leem também estão borrados e turvos, assim como os meus. É apenas o futuro que acontece em todos os presentes de um passado que ninguém soube que aconteceu. Esse texto ainda não foi escrito, pois não há ponto final. Perdão, eu peço perdão. Eu apenas perdi a borracha.