A beleza existe em tudo - tanto no bem como no mal. Mas somente os artistas e os poetas sabem encontrá-la. - Charlie Chaplin
sábado, 21 de setembro de 2013
Fica e faz de conta.
Posso colocar a lanterna na testa esta noite. Posso recomeçar a minha coleção de canetas e destruir aquele mostruário de moedas antigas que guardo na gaveta. Posso dizer que li Maquiavel e dormir na metade do livro, posso fingir que o sangue das estrelas é a noite e que eu prefiro a luz do dia. Posso dizer, novamente, que não sei o motivo das pessoas ficarem tão tristes e sentirem tanta pena do que não é da conta delas. Posso engolir minhas virtudes e perguntar o motivo de alguém dizer bom dia no elevador… Tem gente que deveria se importar menos e apertar todos os botões. Eu também poderia começar dizendo que eu tenho muita coisa pra falar e não sei por onde começar. Mas a verdade é que eu sei sim e me guardo no direito de começar te mandando por inferno. Vamos pular essa parte, o que você acha? O inferno é exatamente bem aqui. Que você saiba que eu soprei minhas velas e desejei que o céu fosse um pouco menor do que parecia. Aquela infinitude era sombra pras minhas falhas e pra minha solidão. Falando em velas, meu aniversário é em agosto. Sou leonino, temo que você saiba. Temo ter rasgado e comido a sua alma como eu faria com uma caça. As árvores de casa estão sem poda, mas se eu podasse, Brasília seria um plano passarinho na frente da minha vontade que você pouse aqui. Conservo o porão do meu corpo, com medo de jogar essas tuas tralhas foras. Teu ouro, teu cheiro, tuas ervas, tua barba mesquinha, tua farda que não foi passada naquela manhã. Velho, teus documentos têm cheiro de sangue. Meu cordão umbilical tá no papel, tem nome, tem sobrenome, e sente a sua falta. Vem cá e corta, se você é mesmo homem. Vem cá e me olha, faz de conta que eu sou teu braço direito e esquerdo, que eu sou essa elefantíase sem cura e que eu te cresci e amadureci o coração. Finge, ao menos uma vez na droga dessa tua vida, que você saiu e foi comprar cigarros. Eu quero te dizer que espero que você acorde desse pesadelo molhado e case com a sua garota. Comece tua vida. Mas por favor, começa sem mim. Não vou chegar cedo nesse teu destino infalível, e não quero avisar. Talvez eu nunca chegue e você chore quando escutar um outro choro irritante e exagerado. Ei, velho, admiro você. Admiro mesmo você. Tenho medo que essa admiração acabe quando eu tomar vergonha na cara e seguir os conselhos de quem tem experiência em te abandonar. Ou tinha. Ou fingia que tinha. Tudo tem gosto de cemitério entre a gente, você já percebeu? Espero que todas as minhas cinzas sejam parte do seu misto quente. Que minha tristeza salpique e que a gente se atraia. Quero te dizer que senti orgulho de mim mesmo porque alguma coisa sua ficou embaixo da cama. E quer saber? Eu não olhei. Eu adormeci mesmo assim, tremendo, suando, chorando, gritando, mas eu não olhei. Eu não quis acreditar em você, quando a casa ficou escura demais pra um garoto que já saiu do útero do teu sonífero querendo dominar o mundo. O mundo que não é teu, adianto. O mundo que me ralou, me emocionou e me fez muito feliz. Eu quero te dizer, inclusive, que não decorei as poesias de hoje. Que escrevi nas paredes do meu quarto, uma vez, que eu não queria que você tivesse ido embora. Em outras palavras, claro. Nunca fui tão óbvio assim. As nuvens adquirem várias formas e é assim que você e me é. Indefinível feito a droga de uma nuvem, que chove e vai embora pra outro continente, conhecer gente mais legal, inundar e salvar a vida do povo Africano e depois morrer no melhor túmulo que alguém poderia querer. E no mais irônico também. Você morre nos meus braços e na minha pneumonia, porque eu só gosto da chuva quando eu estou dentro dela. Sofrendo. E eu sei que você não tem forças pra ir até a África, mas eu deixo você agonizar aqui perto, eu faço de você o meu herói. O trato é esse: Você chega aqui e corta no meio dos meus dedos. Ou então quebra a droga dos meus dedos mesmo e calcifica a nossa inimizade. A nossa estranheza. Só que o teu toque me faria sarar de tanta coisa, ah, você nem imagina. Tua cantiga seria melhor que um sanguessuga no tempo em que o sangue doente das pessoas precisava alimentar uma outra criatura nojenta. Parece bem com a nossa história, mas os dois morreriam. Nada mal pra dois estranhos, hum? Nada mal. Relação estranha de esclavagismo, essa é a verdade. Eu não olhei pros monstros essa noite com medo de me ver em alguns deles. Malditos olhos castanhos que podem ser de qualquer um, menos teus. Mas fica e faz de conta, seu babaca, faz de conta que você me ama. Fica, se você tem punhos firmes e palavra de honra. Porque eu não tenho mais coragem de acreditar.
- Alô?
- Filho, eu estou voltando pra casa hoje. Como você está?
- Pai?
- Desculpe, número errado.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
"Aqui está, de modo totalmente provisório, um primeiro exemplo. Em todos os tempos se quis "melhorar" os homens: é isso que, antes de tudo, foi chamada moal. Mas sob esta mesma palavra " moral" se ocultam as tendências mais diversas. A domesticação do animal humano, bem como a crianção de uma espécie determinada de homens, são um "melhoramento": esses termos zoológicos exprimem unicamente realidades - mas essas são realidades de que o melhorador-tipo, o sacerdote, não sabe nada de fato - de que não quer nada saber... Chamar "melhoramento" a domesticação de um animal soa a nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Quem sabe o que acontece nos estábulos, duvido muito que o animal seja neles "melhorado". É debilitado, é tornado menos perigoso, pelo sentimento depressivo do medo, pela dor e pelas feridas se faz dele um animal doente. - Não acontece outra coisa com o homem domesticado, que o sacerdote tornou "melhor". Nos primeiros tempos da Idade Média, quando a Igreja era acima de tudo um estábulo, em toda parte eram selecionados os belos exemplares do "animal "louro" - era "melhorado", por exemplo, os nobres germânicos. Mas qual era, depois disso, o aspecto de um desses germânicos tornado "melhor" e atirado num convento? Tinha a aparência de uma caricatura de homem, de um aborto: haviam feito dele um "pecador", estava enjaulado, havia sido encerrado no meio das ideias mais espantosas... Deitado, dente, miserável, aborrecia-se a si mesmo; estava cheio de ódio contra os instintos de vida, cheio de desconfiança em relação a tudo o que permanecia ainda forte e feliz. Numa palavra, era "cristão"... Para falar em termos fisiológicos: na luta com o animal, torná-lo doente é talvez o único meio de enfraquecê-lo. A Igreja compreendeu isso perfeitamente: ela perverteu o homem, tornou-o fraco - mas ela reivindicou o mérito de tê-lo tornado "melhor"."
Nietzsche
Como não amar esse homem?
Nietzsche
Como não amar esse homem?
domingo, 11 de agosto de 2013
A segunda tentativa é sempre mais patética
01:19 AM
É frio. Não é nada parecido com os outros metais. Há uma grande diferença entre segurar uma barra de ferro e apontar um cano de revólver pra sua cabeça. Eu senti minhas mãos tremerem, só não estava com medo. Estava sentindo todo o meu corpo ricochetear aquele misto de drama e prazer que me consumia em cada gota de suor que deslizava da minha testa. Veia terrível à mostra, que só surge quando eu fico muito excitado. Curiosamente se parece com uma forca. Clichê demais, meu amigo. Clichê demais. Vamos tentar estourar os seus miolos, só dessa vez.
Não derramei uma gota de lágrima. Acordei, escovei os dentes, brinquei com o meu cachorro, tomei banho cantarolando, comi, liguei pra minha namorada, comi o resto do meu bolo de pré-aniversário, e li. Depois a coisa era simples: decidir que finalmente você ia tomar coragem pra limpar a sua belezinha encostada na parede antes do campeonato de tiro ao alvo e resolver dar um fim na própria vida. Por que? Estou triste. Cin, pense um pouco mais. Você está triste, mas as criancinhas com câncer também estão. E estão lutando pela vida. Não, eu não creio nisso. Estão lutando pela vida, no lugar da vida. São peões que evitam que o rei perpétuo seja deposto. O ser humano tem um medo muito plausível sobre mudanças e suas consequências. Mas não estou interessado em crer em nada disso porque ninguém enfia tubos no meu nariz pra que eu perceba que viver é uma luta diária que ninguém nunca me implorou pra vencer. Não preciso estar morrendo pra desistir. Só preciso estar vivo. Não que eu queira dar uma de pessimista, porque não me importo com ninguém além de mim, e isso significa que não me importo com ninguém. Não me importo em acordar amanhã e ser a pessoa mais feliz do mundo, mas hoje... hoje eu não quero acordar amanhã.
As dores são insônias, os remédios que eu tomo se embrulharam no meu estômago dizendo um adeus terrível. Imploram para que eu não deixe de senti-los brincando com as minhas tripas enquanto eu brinco de ser saudável aqui fora, num intervalo entre um desmaio e outro. Mas acontece que sou triste. Sou triste, triste e meio. Sem mim a tristeza não existiria. Somos um romance implorando aos críticos mais clichês que nos faça um final feliz. Mal dá pra respirar pensando em tanta babaquice vindo à tona em meus remotos últimos segundos de vida.
A morte é uma terra inexplorada. E eu já cansei de tentar esquecer meus próprios passos nessa imensidão decorada que alguns chamam de... vida? Eu quero inovar. Só isso. O garoto triste quer ser triste em outro lugar. Por sorte eu não acredito em "outro lugar". Deus me concedeu a dádiva de não acreditar nele. E não acreditar em dádiva nenhuma também.
Parece que quanto menos tempo você tem, mais tempo você tem. Mamãe gostava de comprar revistas de novelas pra saber o que aconteceria no capítulo seguinte. Mas assistia a novela mesmo assim pra saber se o que ela leu estava certo. Lógica? Mamãe também morreu feito uma premonição. Sabia quando, sabia como, sabia o motivo de morrer. E optou por ver até onde essa merda ia dar. Por mim, eu acho. Não que eu me sinta tão culpado assim, porque todo mundo sabe que revista de novelas são bem baratinhas. Quase não valem a pena. Mas mamãe também gostava das receitas de bolo que vinham nelas. E gostava de mim.
Fiz carinho no meu cabelo raspado duas ou três vezes com o cano do revólver. A lápide era um berço, a despedida era um riso de escárnio e um arrependimento profundo. Mas não, ninguém se importa com isso. Eu não quero morrer, de verdade. Eu não quero ter que me arrepender quando a bala só tiver feito uma pressãozinha na minha cabeça antes de espocá-la. Porque o tempo nos dá essas brechas, essas falhas. O tempo não nos mata imediatamente. Uma pedra atirada no ar tem que primeiro perder velocidade antes de cair. E ainda dizem que a alma não é só materialismo.
Resumindo, porque estou ficando com sono: deixei que a arma caísse no chão, logo em seguida fiquei em posição fetal esperando que alguém me socorresse. Senti minhas mãos sujas de sangue e não conseguia fechar as pálpebras. Um transe cadavérico. Senti falta do carinho frio na minha cabeça. Senti aquela agonia de um quase-espirro. Com a diferença de estar quase-me-matando.
Tenho uma arma. Tenho um curso de tiro. Tenho uma dor que me consome, diariamente. Um abandono, um peso e um pesadelo. Segredo sobre como é viver uma vida que não é só sua: você não pode simplesmente sair perambulando por aí, se suicidando. Egoísmo demais.
Será?
Ps: Não foi uma tentativa de verdade. Estava só brincando. Ensaiando. 1, 2, 3 e atenção... Vivendo!
Ps2: A arma estava descarregada. Maldita.
Só então eu chorei.
É frio. Não é nada parecido com os outros metais. Há uma grande diferença entre segurar uma barra de ferro e apontar um cano de revólver pra sua cabeça. Eu senti minhas mãos tremerem, só não estava com medo. Estava sentindo todo o meu corpo ricochetear aquele misto de drama e prazer que me consumia em cada gota de suor que deslizava da minha testa. Veia terrível à mostra, que só surge quando eu fico muito excitado. Curiosamente se parece com uma forca. Clichê demais, meu amigo. Clichê demais. Vamos tentar estourar os seus miolos, só dessa vez.
Não derramei uma gota de lágrima. Acordei, escovei os dentes, brinquei com o meu cachorro, tomei banho cantarolando, comi, liguei pra minha namorada, comi o resto do meu bolo de pré-aniversário, e li. Depois a coisa era simples: decidir que finalmente você ia tomar coragem pra limpar a sua belezinha encostada na parede antes do campeonato de tiro ao alvo e resolver dar um fim na própria vida. Por que? Estou triste. Cin, pense um pouco mais. Você está triste, mas as criancinhas com câncer também estão. E estão lutando pela vida. Não, eu não creio nisso. Estão lutando pela vida, no lugar da vida. São peões que evitam que o rei perpétuo seja deposto. O ser humano tem um medo muito plausível sobre mudanças e suas consequências. Mas não estou interessado em crer em nada disso porque ninguém enfia tubos no meu nariz pra que eu perceba que viver é uma luta diária que ninguém nunca me implorou pra vencer. Não preciso estar morrendo pra desistir. Só preciso estar vivo. Não que eu queira dar uma de pessimista, porque não me importo com ninguém além de mim, e isso significa que não me importo com ninguém. Não me importo em acordar amanhã e ser a pessoa mais feliz do mundo, mas hoje... hoje eu não quero acordar amanhã.
As dores são insônias, os remédios que eu tomo se embrulharam no meu estômago dizendo um adeus terrível. Imploram para que eu não deixe de senti-los brincando com as minhas tripas enquanto eu brinco de ser saudável aqui fora, num intervalo entre um desmaio e outro. Mas acontece que sou triste. Sou triste, triste e meio. Sem mim a tristeza não existiria. Somos um romance implorando aos críticos mais clichês que nos faça um final feliz. Mal dá pra respirar pensando em tanta babaquice vindo à tona em meus remotos últimos segundos de vida.
A morte é uma terra inexplorada. E eu já cansei de tentar esquecer meus próprios passos nessa imensidão decorada que alguns chamam de... vida? Eu quero inovar. Só isso. O garoto triste quer ser triste em outro lugar. Por sorte eu não acredito em "outro lugar". Deus me concedeu a dádiva de não acreditar nele. E não acreditar em dádiva nenhuma também.
Parece que quanto menos tempo você tem, mais tempo você tem. Mamãe gostava de comprar revistas de novelas pra saber o que aconteceria no capítulo seguinte. Mas assistia a novela mesmo assim pra saber se o que ela leu estava certo. Lógica? Mamãe também morreu feito uma premonição. Sabia quando, sabia como, sabia o motivo de morrer. E optou por ver até onde essa merda ia dar. Por mim, eu acho. Não que eu me sinta tão culpado assim, porque todo mundo sabe que revista de novelas são bem baratinhas. Quase não valem a pena. Mas mamãe também gostava das receitas de bolo que vinham nelas. E gostava de mim.
Fiz carinho no meu cabelo raspado duas ou três vezes com o cano do revólver. A lápide era um berço, a despedida era um riso de escárnio e um arrependimento profundo. Mas não, ninguém se importa com isso. Eu não quero morrer, de verdade. Eu não quero ter que me arrepender quando a bala só tiver feito uma pressãozinha na minha cabeça antes de espocá-la. Porque o tempo nos dá essas brechas, essas falhas. O tempo não nos mata imediatamente. Uma pedra atirada no ar tem que primeiro perder velocidade antes de cair. E ainda dizem que a alma não é só materialismo.
Resumindo, porque estou ficando com sono: deixei que a arma caísse no chão, logo em seguida fiquei em posição fetal esperando que alguém me socorresse. Senti minhas mãos sujas de sangue e não conseguia fechar as pálpebras. Um transe cadavérico. Senti falta do carinho frio na minha cabeça. Senti aquela agonia de um quase-espirro. Com a diferença de estar quase-me-matando.
Tenho uma arma. Tenho um curso de tiro. Tenho uma dor que me consome, diariamente. Um abandono, um peso e um pesadelo. Segredo sobre como é viver uma vida que não é só sua: você não pode simplesmente sair perambulando por aí, se suicidando. Egoísmo demais.
Será?
Ps: Não foi uma tentativa de verdade. Estava só brincando. Ensaiando. 1, 2, 3 e atenção... Vivendo!
Ps2: A arma estava descarregada. Maldita.
Só então eu chorei.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Sobre Clara, claramente.
O título dói. Deserdamos nosso mistério?
O que eu tenho pra falar é pouco. É pouco porque nunca conhecemos muito da vida. Talvez todas as minhas palavras tenham o teu perfume, talvez não. Talvez eu tenha te esquecido, talvez não. Talvez eu tenha um inconsciente que nunca te amou, e certamente não. O que conta é que nosso amor foi matéria e consequência. Foi dilúvio. Dilúvio sem arca, e não tem nada mais lindo do que morrer de metáfora no lugar de morrer por amor. Qualquer bala e suicídio dramático resolvem, mas no nosso caso, morrer era uma chance de vida. Uma permanência exacerbada, com cheiro de rosa afogada. Eu evitei esse momento o máximo que consegui, porque quis vencer. Superar. Mas qual a graça do drama amadurecido? Eu quero apodrecer de tristeza nas tuas mãos, sem vergonha nenhuma. O problema é que já não sinto mais as tuas mãos. E o carinho, o sentimento, a culpa, é tudo esquizofrenia. Escorro livre feito um desencaminhado fora de época, e eu preciso que alguém me veja sofrer, para que eu compreenda, atônito, que não estou pedindo socorro. Clara, meu bem, eu não quero a sua volta. A nossa obra de arte é lixo reciclável, e só vemos o quão bela é a poesia alternativa quando nos afastamos da exposição. Quando nos escondemos, e vemos de longe, que nos escondemos de nós mesmos. Vemos nossas almas como quem vê um museu. Nossos móveis antigos ainda estão lá. Nosso “sim” e nosso “não”, nossos medos, nossas invejas, nossa irracionalidade. Porque só contigo eu me permito ser saudade. Só contigo eu desarmo o meu humor e digo que sou frágil feito uma rocha, mas que você é forte como uma tempestade. Passageira. Só passageira. Anos de ausência foram responsáveis pela reação em cadeia. Eu e você, aqui, juntos, agora. Explosão nuclear. Cheiro de pólvora. Cheiro de desistências, de remorsos e de amor. Eu preciso dizer, Clara, que vivi. Que estive vivo. Você sabe que a minha respiração é uma bandeira branca. Que meu corpo em chamas é morada do teu crescimento. Então eu estou aqui. Estou aqui por você, como não prometi que estaria. Talvez eu esperava que você soubesse. Talvez, não. Talvez eu só quisesse não te dar motivos de escolha. Estou aqui e pronto, quer você queira, quer não, quer você saiba, quer não. Ou então foi covardia mesmo, porque assumamos, meu amor, que não sabemos nada sobre coragem. Pulamos dentro da fogueira por inocência. De mãos dadas, atravessamos os demônios da infância, os pesadelos do cinismo, o pecado do sofrimento, as chances da vaidade. Fomos inquebráveis. Até o momento em que soubemos que mãos dadas às vezes suam. E quando limpamos o nosso esforço, ficamos vulneráveis. Não somos gente de aproveitar o passado. Olho para trás, eu vejo o presente. Olho para frente, eu vejo um futuro sem passado. Onde está o nosso amor, que não passou por aqui? Por que você permanece, Clara? Eu já soltei a sua mão. Eu não tenho mais forças pra continuar sozinho, eu me recuso a derramar um único sal que não seja lágrima. Desistir é mais nobre, é um luto. É um pedido de desculpas. Porém eu continuo, e você sabe. Eu atravessaria a morte se fosse necessário, e está doendo. As estrelas no céu, meu bem, elas continuam doendo. Vamos cantar e deixar que a Lua adormeça. O mundo, esse sentimental, anestesiou os nossos corações. E tudo bate descompassadamente até o momento em que o mundo sofreu uma desilusão. As placas tectônicas, a tragédia, o choro, o caos, o desespero. E o mundo nos acorda, nos primaveriza, e o inverno é cruel. Nos perdemos por aqui. Nos perderemos amanhã. Só não esquece de como era estar comigo. Não esquece, na hora da tua morte física, que você amou alguém que não merecia ser amado. Que não precisava, eu acho. Você também não precisava. O choro te amou primeiro do que eu, o seu cheiro de tristeza eu sinto daqui. Seus olhos apertados e avermelhados sabiam que diríamos adeus. A nossa probabilidade era quase zero e nossa urgência aconteceu. Clara, fica. Fica para que as flores de plástico do hospital não passem a enfeitar o que é teu por direito. Minha vida, meu gosto, meu despreparo, minha infância, meu primeiro amor. Não nos artificialize, não nos materialize, porque somo só dois coros melancólicos. O vento nos aproxima, meu amor. O vento nos aproxima. Teu nome, Clara, me parece tudo, menos claro. Essa confusão e essa tempestade te deixam ainda mais bonita. É compreensível? A minha fraqueza, ela é compreensível? Não, não tente me compreender. Não tente compreender um homem rico, podre de rico, que deixa Monalisa rodando na vitrine para que possa admirá-la, sem fazer um lance sequer. Até que a pintura acabe. Só que não gostamos de exposição, eu já disse. Te deixei em pé por muito tempo. Você precisava cair. Cair em outro lugar além do meu peito, porque você finalmente notou o buraco que deixou quando eu disse adeus. Eu fui o responsável, mas eu não te quero de volta. Assumo, preciso. Mas não quero. Fica um pouco mais, só pra eu poder te ver. A verdade é que eu não tenho com o que te comprar. Eu não tenho mais a pele tão fina assim e as minhas mãos não encaixam tão perfeitamente na tua caminhada. Perdoa, meu amor, eu mudei. Nós mudamos. Mas permita que eu me esconda nas minhas sombras e te ame de longe, com calma, despetalando e vivendo um sonho. O nosso fim vai acontecer quando eu acordar e ver que eu esqueci de você como quem esquece de respirar. Estou aqui por você, Clara. Estou aqui pra você. Seria nosso destino, se o destino existisse. Um para o outro, um sem o outro.
O que eu tenho pra falar é pouco. É pouco porque nunca conhecemos muito da vida. Talvez todas as minhas palavras tenham o teu perfume, talvez não. Talvez eu tenha te esquecido, talvez não. Talvez eu tenha um inconsciente que nunca te amou, e certamente não. O que conta é que nosso amor foi matéria e consequência. Foi dilúvio. Dilúvio sem arca, e não tem nada mais lindo do que morrer de metáfora no lugar de morrer por amor. Qualquer bala e suicídio dramático resolvem, mas no nosso caso, morrer era uma chance de vida. Uma permanência exacerbada, com cheiro de rosa afogada. Eu evitei esse momento o máximo que consegui, porque quis vencer. Superar. Mas qual a graça do drama amadurecido? Eu quero apodrecer de tristeza nas tuas mãos, sem vergonha nenhuma. O problema é que já não sinto mais as tuas mãos. E o carinho, o sentimento, a culpa, é tudo esquizofrenia. Escorro livre feito um desencaminhado fora de época, e eu preciso que alguém me veja sofrer, para que eu compreenda, atônito, que não estou pedindo socorro. Clara, meu bem, eu não quero a sua volta. A nossa obra de arte é lixo reciclável, e só vemos o quão bela é a poesia alternativa quando nos afastamos da exposição. Quando nos escondemos, e vemos de longe, que nos escondemos de nós mesmos. Vemos nossas almas como quem vê um museu. Nossos móveis antigos ainda estão lá. Nosso “sim” e nosso “não”, nossos medos, nossas invejas, nossa irracionalidade. Porque só contigo eu me permito ser saudade. Só contigo eu desarmo o meu humor e digo que sou frágil feito uma rocha, mas que você é forte como uma tempestade. Passageira. Só passageira. Anos de ausência foram responsáveis pela reação em cadeia. Eu e você, aqui, juntos, agora. Explosão nuclear. Cheiro de pólvora. Cheiro de desistências, de remorsos e de amor. Eu preciso dizer, Clara, que vivi. Que estive vivo. Você sabe que a minha respiração é uma bandeira branca. Que meu corpo em chamas é morada do teu crescimento. Então eu estou aqui. Estou aqui por você, como não prometi que estaria. Talvez eu esperava que você soubesse. Talvez, não. Talvez eu só quisesse não te dar motivos de escolha. Estou aqui e pronto, quer você queira, quer não, quer você saiba, quer não. Ou então foi covardia mesmo, porque assumamos, meu amor, que não sabemos nada sobre coragem. Pulamos dentro da fogueira por inocência. De mãos dadas, atravessamos os demônios da infância, os pesadelos do cinismo, o pecado do sofrimento, as chances da vaidade. Fomos inquebráveis. Até o momento em que soubemos que mãos dadas às vezes suam. E quando limpamos o nosso esforço, ficamos vulneráveis. Não somos gente de aproveitar o passado. Olho para trás, eu vejo o presente. Olho para frente, eu vejo um futuro sem passado. Onde está o nosso amor, que não passou por aqui? Por que você permanece, Clara? Eu já soltei a sua mão. Eu não tenho mais forças pra continuar sozinho, eu me recuso a derramar um único sal que não seja lágrima. Desistir é mais nobre, é um luto. É um pedido de desculpas. Porém eu continuo, e você sabe. Eu atravessaria a morte se fosse necessário, e está doendo. As estrelas no céu, meu bem, elas continuam doendo. Vamos cantar e deixar que a Lua adormeça. O mundo, esse sentimental, anestesiou os nossos corações. E tudo bate descompassadamente até o momento em que o mundo sofreu uma desilusão. As placas tectônicas, a tragédia, o choro, o caos, o desespero. E o mundo nos acorda, nos primaveriza, e o inverno é cruel. Nos perdemos por aqui. Nos perderemos amanhã. Só não esquece de como era estar comigo. Não esquece, na hora da tua morte física, que você amou alguém que não merecia ser amado. Que não precisava, eu acho. Você também não precisava. O choro te amou primeiro do que eu, o seu cheiro de tristeza eu sinto daqui. Seus olhos apertados e avermelhados sabiam que diríamos adeus. A nossa probabilidade era quase zero e nossa urgência aconteceu. Clara, fica. Fica para que as flores de plástico do hospital não passem a enfeitar o que é teu por direito. Minha vida, meu gosto, meu despreparo, minha infância, meu primeiro amor. Não nos artificialize, não nos materialize, porque somo só dois coros melancólicos. O vento nos aproxima, meu amor. O vento nos aproxima. Teu nome, Clara, me parece tudo, menos claro. Essa confusão e essa tempestade te deixam ainda mais bonita. É compreensível? A minha fraqueza, ela é compreensível? Não, não tente me compreender. Não tente compreender um homem rico, podre de rico, que deixa Monalisa rodando na vitrine para que possa admirá-la, sem fazer um lance sequer. Até que a pintura acabe. Só que não gostamos de exposição, eu já disse. Te deixei em pé por muito tempo. Você precisava cair. Cair em outro lugar além do meu peito, porque você finalmente notou o buraco que deixou quando eu disse adeus. Eu fui o responsável, mas eu não te quero de volta. Assumo, preciso. Mas não quero. Fica um pouco mais, só pra eu poder te ver. A verdade é que eu não tenho com o que te comprar. Eu não tenho mais a pele tão fina assim e as minhas mãos não encaixam tão perfeitamente na tua caminhada. Perdoa, meu amor, eu mudei. Nós mudamos. Mas permita que eu me esconda nas minhas sombras e te ame de longe, com calma, despetalando e vivendo um sonho. O nosso fim vai acontecer quando eu acordar e ver que eu esqueci de você como quem esquece de respirar. Estou aqui por você, Clara. Estou aqui pra você. Seria nosso destino, se o destino existisse. Um para o outro, um sem o outro.
sábado, 20 de julho de 2013
Édipo
Solilóquio do último filósofo.
Um fragmento da história da posteridade.
O último filósofo, é assim que me designo, pois sou o último homem. Ninguém me fala a não ser somente eu e minha voz chega a mim como a de um moribundo! Contigo, voz amada, contigo, último sopro da lembrança de toda felicidade humana, deixa-me ainda esse comércio de uma única hora; graças a ti dou o troco à minha solidão e penetro na mentira de uma multidão e de um amor, pois meu coração rejeita em acreditar que o amor esteja morto, não suporta o arrepio da mais solitária das solidões e me obriga a falar como se eu fosse dois.
Ouço-te ainda, minha voz? Cochichas praguejando? E tua maldição teve de explodir as entranhas deste mundo! Mas ele vive ainda e só me fixa com mais brilho e frieza de suas estrelas impiedosas, ele vive, tão estúpido e cego como nunca foi, e um só morre, o homem.
E contudo! Ouço-te ainda, voz amada. Morre ainda alguém fora de mim, o último homem, neste universo: o último suspiro, teu suspiro morre comigo, esse longo ai! ai! suspirado em mim, o último dos miseráveis, Édipo.
Nietzsche
Um fragmento da história da posteridade.
O último filósofo, é assim que me designo, pois sou o último homem. Ninguém me fala a não ser somente eu e minha voz chega a mim como a de um moribundo! Contigo, voz amada, contigo, último sopro da lembrança de toda felicidade humana, deixa-me ainda esse comércio de uma única hora; graças a ti dou o troco à minha solidão e penetro na mentira de uma multidão e de um amor, pois meu coração rejeita em acreditar que o amor esteja morto, não suporta o arrepio da mais solitária das solidões e me obriga a falar como se eu fosse dois.
Ouço-te ainda, minha voz? Cochichas praguejando? E tua maldição teve de explodir as entranhas deste mundo! Mas ele vive ainda e só me fixa com mais brilho e frieza de suas estrelas impiedosas, ele vive, tão estúpido e cego como nunca foi, e um só morre, o homem.
E contudo! Ouço-te ainda, voz amada. Morre ainda alguém fora de mim, o último homem, neste universo: o último suspiro, teu suspiro morre comigo, esse longo ai! ai! suspirado em mim, o último dos miseráveis, Édipo.
Nietzsche
você deveria engolir os erros e chorar. você deveria saber, como eu sei, que nós nunca existimos. que a única coisa que nós fizemos foi nos inventar.
eu te amo é uma frase forte, mas é uma frase de efeito. nos dias de maresia, quando as butucas de cigarro no meu cinzeiro não eram tão melancólicas, eu pensava: somos tão sortudos por não precisarmos desse drama. mas nosso drama só foi impreciso e nada mais. engano meu. precisávamos sim. precisávamos nos amar, eu precisava que você me fizesse sofrer, que eu te xingasse, que eu te odiasse, precisávamos de um pedido de desculpas, de um amante, de uma traição qualquer. eu precisava olhar a foto de outra pessoa, me sentir atraído por ela e me sentir imundo por saber que eu te amava e não poderia ser dono da minha carne. mas não, eu simplesmente colei o seu rosto em todos os pecados. e pecado por amor, deus não castiga. eu precisava estar lá quando você me virasse as costas, mas eu nunca estive em lugar nenhum onde você não estivesse também.
eu quero olhar pra trás e pensar: "então foi isso o que nós deixamos pra trás, um amor bonito, mas agora foi, que se dane".
não, porque não existimos.
eu sou algo parecido com o céu
algo parecido com a imensidão
e algo parecido com um vazio
um vazio só
ocupando toda a vida
mas você sabe. a vida é irônica. a vida é uma metáfora e um romance não escrito. uma vingança maldita. você sabe. ou melhor, você não sabe. e dói. dói ser tão covarde a ponto de me mostrar só pelo lado não desenhado. pelo papel em branco. é mais seguro, não? é mais seguro quando se fecha os olhos. mas abra, por favor. abra e veja o que você destruiu por simplesmente não chegar a tempo. olhe o que fizemos pela falta de amar um ao outro. e se culpe, em nome de toda a tua futilidade sagrada. só quando você disser que nunca me amou, eu vou ter certeza que houve amor.
eu digo que um pedaço da minha existência medíocre ficou encravada em alguma parte do teu corpo. eu não sei qual. pode ser no coração, como um clichê de merda, ou pode ser no pé, sem causar dor nenhuma, algo mais puxado pro lado da tua imundície, porém algo original. se erramos foi porque nosso marketing estava bom demais pros meus dias sem movimento. quisemos ser diferentes porque nós dois temos um senso de moral e ética desumano e a boa e moralista filosofia não quer nem desmaiar no chão onde desabamos. é tudo tão vago. e maravilhoso ao mesmo tempo. é maravilhoso dizer que a vida sem você continua, mas ninguém explica que ela continua andando pro lado errado, porque o lado certo seria a morte. a morte exagerada ao teu lado, mastigando vômito e ouvindo um blues. mas somos um ninho de individualidade, egoísmo e sadismo. somos um jogo comprado. você viciou os meus dados, a minha língua e a minha loucura. o que foi além disso? essa poeira que cobre o céu, amor, vai ficar pra sempre. essas estrelas têm gosto de pão dormido. alimentam só o que há de mais instintivo dentro de mim, e a falta que sinto de você é uma fome parcialmente gourmet, uma amostra do pesadelo e do meu desequilíbrio que evitei reconhecer durante todos esses anos. eu nunca precisei de ninguém pra me dizer "chega, você é insuportável", até simplesmente começar a precisar. eu precisava que alguém me suportasse e fosse embora, mas você limpou seus pés sujos de um passado mesquinho no meu tapete de boas vindas. e desde então, ninguém mais entrou. sinto falta do cheiro de lixo que você me trazia. ele espantava. e fazia a dor ter sentido contrário.
sinto falta do amor que eu nunca senti por você. sinto falta de ter uma parcela de mim se enganando, permanecendo não existindo. porque se for pra existir sozinho, eu não tenho mais espaço.
eu te amo é uma frase forte, mas é uma frase de efeito. nos dias de maresia, quando as butucas de cigarro no meu cinzeiro não eram tão melancólicas, eu pensava: somos tão sortudos por não precisarmos desse drama. mas nosso drama só foi impreciso e nada mais. engano meu. precisávamos sim. precisávamos nos amar, eu precisava que você me fizesse sofrer, que eu te xingasse, que eu te odiasse, precisávamos de um pedido de desculpas, de um amante, de uma traição qualquer. eu precisava olhar a foto de outra pessoa, me sentir atraído por ela e me sentir imundo por saber que eu te amava e não poderia ser dono da minha carne. mas não, eu simplesmente colei o seu rosto em todos os pecados. e pecado por amor, deus não castiga. eu precisava estar lá quando você me virasse as costas, mas eu nunca estive em lugar nenhum onde você não estivesse também.
eu quero olhar pra trás e pensar: "então foi isso o que nós deixamos pra trás, um amor bonito, mas agora foi, que se dane".
não, porque não existimos.
eu sou algo parecido com o céu
algo parecido com a imensidão
e algo parecido com um vazio
um vazio só
ocupando toda a vida
mas você sabe. a vida é irônica. a vida é uma metáfora e um romance não escrito. uma vingança maldita. você sabe. ou melhor, você não sabe. e dói. dói ser tão covarde a ponto de me mostrar só pelo lado não desenhado. pelo papel em branco. é mais seguro, não? é mais seguro quando se fecha os olhos. mas abra, por favor. abra e veja o que você destruiu por simplesmente não chegar a tempo. olhe o que fizemos pela falta de amar um ao outro. e se culpe, em nome de toda a tua futilidade sagrada. só quando você disser que nunca me amou, eu vou ter certeza que houve amor.
eu digo que um pedaço da minha existência medíocre ficou encravada em alguma parte do teu corpo. eu não sei qual. pode ser no coração, como um clichê de merda, ou pode ser no pé, sem causar dor nenhuma, algo mais puxado pro lado da tua imundície, porém algo original. se erramos foi porque nosso marketing estava bom demais pros meus dias sem movimento. quisemos ser diferentes porque nós dois temos um senso de moral e ética desumano e a boa e moralista filosofia não quer nem desmaiar no chão onde desabamos. é tudo tão vago. e maravilhoso ao mesmo tempo. é maravilhoso dizer que a vida sem você continua, mas ninguém explica que ela continua andando pro lado errado, porque o lado certo seria a morte. a morte exagerada ao teu lado, mastigando vômito e ouvindo um blues. mas somos um ninho de individualidade, egoísmo e sadismo. somos um jogo comprado. você viciou os meus dados, a minha língua e a minha loucura. o que foi além disso? essa poeira que cobre o céu, amor, vai ficar pra sempre. essas estrelas têm gosto de pão dormido. alimentam só o que há de mais instintivo dentro de mim, e a falta que sinto de você é uma fome parcialmente gourmet, uma amostra do pesadelo e do meu desequilíbrio que evitei reconhecer durante todos esses anos. eu nunca precisei de ninguém pra me dizer "chega, você é insuportável", até simplesmente começar a precisar. eu precisava que alguém me suportasse e fosse embora, mas você limpou seus pés sujos de um passado mesquinho no meu tapete de boas vindas. e desde então, ninguém mais entrou. sinto falta do cheiro de lixo que você me trazia. ele espantava. e fazia a dor ter sentido contrário.
sinto falta do amor que eu nunca senti por você. sinto falta de ter uma parcela de mim se enganando, permanecendo não existindo. porque se for pra existir sozinho, eu não tenho mais espaço.
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