sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Ouvindo Vozes - Karina Buhr

      1992. Eu tocava tambor e cantava na chamada "nova cena mundial pernambucana".
      Era percussionista, ou "percussionista mulher".
      2010. Lancei um disco com músicas minhas e, quando vi, virei cantora.
      Cantora é um cargo que cai muito bem em uma mulher brasileira. E passei a fazer parte da chamada "nova cena mundial paulista". Zerou tudo. Elixir da juventude.
      O Brasil é o país das cantoras. Mas é porque a conta só é feita com elas. Dupla sertaneja, veja bem, tem aos milhares. E ainda é de dois em dois...
      No pequeno mundo estabelecido da música criticada, analisada e catalogada, as mulheres estão para os homens como o Nordeste está para o Brasil e o Brasil está para Europa e EUA. O Brasil desse pequeno mundo costuma ficar ali, mais ou menos entre RJ e SP.
      Bem comum é ouvir que "o Nordeste traz muita coisa boa para o Brasil". Mistérios geográficos nossos de cada dia. Longe de Onde.
      Pra me poupar saliva de caneta, falanges para teclar, você pode ir na loja de discos mais próxima, caso ela não tenha fechado, e perceber que não raro, as mulheres brasileiras, caso cantem, estarão empilhadas em uma única categoria: "cantoras brasileiras".
      Os moços estarão lá, devidamente fichados, de acordo com o que diz o mercado das prateleiras. Não vou entrar aqui no julgamento do tal mercado, vou só registrar que ele não canta a individualidades das meninas. E mulher? Desse lado aqui. Setor cantora.
      No mesmo balaio, você pode encontrar Maria Rita, Deize Tigrona, Angela Maria, Lurdez da Luz, Maria Alcina, Fernanda Abreu, Elba Ramalho, Preta Gil, Paula Fernandes, Teresa Cristina, Tiê, Maria Bethânia, Wanessa, Issar, Claudia Leite...
     Os cavalheiros estarão devidamente separados por estilo musical, como deve ser em prateleira. Fábio Jr . não estará do lado de Otto, junto com Kelvis Duran e Luan Santana.
      Michel Teló não fará par com Paulinho da Viola, Zezé di Camargo, China e Emicida não serão vizinhos.
      E existe a ideia de um certo glamour. Pipocam eternas comparações sem sentido e a vibração picuinha-dos-inferno se estabelece jornais afora. Às vezes, lembra concurso de miss. Botam as mina pra competir, como de costume, como na vida real, que dizem que é assim. Não é assim. Só te socam isso goela abaixo. Foie gras. É só fazer as contas de novo, como no caso das duplas sertanejas.
      Enquanto isso, ninguém mandou Roberto Carlos ter cuidado porque Thiaguinho Exalta apareceu.
      Já com as senhoritas, perdi as contas de quantas vezes li que era pra Gal Costa e Marisa Monte se ligarem, porque fulana tinha surgido.
      Em zilhões de matérias por aí, você também verá o balaio de cantoras. Do lado de cá, topa-se fazer, claro, é preciso divulgar o trabalho. Eu mesma estou em várias, a maioria feita por pessoas bem intencionadas, inteligentes e competentes. Mas a fórmula é repetida. Mulher continua existindo como se minoria fosse. Imagina se fosse! Imagina quando é! E assim seguem as damas. Entupidas e com falta de ar.
      Será que algum senhor já ouviu numa entrevista "você faz suas músicas sozinho ou com a ajuda de alguém?". Eu, muitas vezes. E vi Pitty dar um piti quando perguntam a ela algo do tipo.
      Vem cá, por que danado se referem a mulheres que cantam como "vozes femininas"?
      É fantasma, é? Deviam usar também "vozes masculinas" ou deixar disso de uma vez. Largar desse eterno vexame.
      Ah! Gatas, parem, de uma vez por todas, de chamar outra mulher de fulano de saias! Mesmo que seja um fulano bem fodão. Assim a gente não progride.
      Elke Maravilha, quando ouviu de um apresentador de TV "você é uma das mulheres que eu mais admiro, disse "eu não sou mulher, eu sou gente", na maior das elegâncias.
      Elke disse tudo, e eu não me demorarei mais.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sem Título.

Desabafo. Não é assim que chamam? Quando você quer lembrar a si mesmo que está sofrendo? Quando você precisa de espaço em casa e quer remover umas peles mortas? Mas antes... Eu tenho um segredo que quero compartilhar: Eu sou perfeito. Completamente perfeito. Dois braços, duas mãos, dois pés, uma cabeça, cabelos, olhos que enxergam muito bem tirando o charme intelectual da miopia, dentes com uma boa mordida, dois ouvidos viciados em risadas quase inaudíveis, pele lisa e boa forma. Boa comida, boa bebida e um amor um pouco mais caro do que a maioria assume ter. Família bonita, bons estudos e dinheiro. Viu? Mais perfeito do que eu não existe. Mas enfim, eu quem? Quem é essa pessoa perfeita? Eu sou um homem que tem a vida perfeita. Certo. Mas que homem? Céus, não há nada mais ridículo do que terminar cada frase com um ponto de interrogação quando o único que pode responder é você mesmo.  Vamos direto ao ponto, então. Ao desabafo, ao grand finale, ao ápice das lamentações daquele homem com a vida perfeita. Porque é isso o que todos querem. Um clímax. Eu darei um clímax, portanto. Os meus braços perfeitos doem. As minhas pernas perfeitas doem. O meu coração com cardiogramas perfeitos dói. Os meus olhos doem. Tudo, absolutamente dói. Todos os meus músculos perfeitos doem. Porque cresceram em uma pele pequena demais. Eu não disse adeus para quase nenhuma casca. Eu adquiri o veneno sem antes completar a muda de pele. E como eu já mencionei, desabafos são peles mortas. Eu não disse adeus para a minha casa sem televisão, para os olhos tristes e molhados de saudades, eu não disse adeus para o pequeno Rudolf, meu pássaro de estimação magricela. Minha coleção de álbuns de figurinhas continua intacta... Quase posso sentir o mesmo orgulho ao revirar as páginas e ver os espaços completamente preenchidos. Eu era fascinado por cores. Talvez eu fosse o menino mais colorido do mundo. Não, do universo! Não, da galáxia! Não, de todo o infinito! Quem sabe de dois infinitos de uma só vez. A felicidade infinita por um álbum de figurinhas completado. Nunca disse adeus para a sensação de poder ao recusar uma brincadeira, ficar em casa e ler um livro. Só por ler. Sem querer entender uma palavra. Mas quando eu topava um jogo de bola, era sempre uma boa festa. Aquele menino esquisito que nunca sai de casa veio jogar um pouco. Nunca disse adeus ao único ódio que sinto falta na vida. Um ódio que fazia os olhos que carinhosamente batizei de olhos da saudade brilharem ainda mais. Eu sinto falta de sentir a dor dos fios inchando-se na minha pele, sinto falta de ver o meu sangue me banhando. Um pedido de desculpas com muito chocolate quente, que tal assim? A raiva passou... E os olhos de saudade brindavam comigo uma infância imperfeita. Mas os ossos cresceram antes de mim... Tudo aquilo era imperfeito demais para caber em mim. O cheiro de remédios, a casa desarrumada, os móveis afastando quando contávamos histórias de piratas e... Baleias. Eu até que gostava das baleias naquela época. Elas pareciam coloridas e cabiam na palma da minha mão. Depois, alguém teve que voar. Mas não era eu. Ainda não. Fechando os olhos eu quase posso sentir o gosto terrível de peixe.. Crianças tristes demais para serem crianças. O impacto do reencontro. Rugas, eu sempre amei as rugas. Rugas também não são imperfeições? Certa vez, ouvi que rugas são as marcas do passado. Acho que envelheci por dentro, então. Se meus dentes eram de leite, mais passado do que a morte não existe. A morte não volta, o adeus não volta, a alma não volta. Acabou. Eu já tinha idade suficiente para ter um passado, onde estavam as minhas rugas? Talvez estivessem dentro de mim, talvez estivessem no rosto deles e eles me devolveriam quando fosse a hora certa. Olhos abaixados por pálpebras que perguntavam aos meus olhos sem respostas para nada: O que vamos fazer com esse menino? O que vamos fazer com esse menino que tem tanto passado? Eu não sei, mas eu era um presente. Não sei se fui um bom presente, mas eu sou o presente mais perfeito de todos. Crescido. Forte. Saudável. Perfeito. Eu não tenho motivos para reclamar. A morbidez dessa felicidade de fantoches me abomina. É pior do que uma  mentira, ela é real. Eu queria ter pelo menos o indício de que já fui infeliz. Eu precisava de provas. Era mais que um desabafo, era a necessidade de manter-me vivo e lúcido. O meu desabafo era a voz que nunca escutei. A voz que imagino como é. A voz que sai do espelho, direto da boca do homem sem rosto e sem documento, que só tem passado e nada mais. Eu só queria que alguém, que sentasse ao meu lado e dissesse que tudo bem não ser perfeito por dentro. Tudo bem, não chore, vai passar. Você é só um garoto triste. Eu deixo você crescer. Eu faço os seus ossos pararem de doer. Eu deixo você sair dessa bolha de proteção do mundo e chorar a sua dor. Eu deixo você voltar no tempo por um segundo, fechar os olhos e dizer adeus ao seu primeiro amor. Eu quero que você se despeça, devagar, que aproveite os beijos na bochecha, que nade no riacho pela última vez. Quero que você leia o seu livro de dez páginas saboreando cada ilustração. Que você perdoe as baleias por serem tão grandes. Que você afaste os móveis da sala pela última vez. Tudo bem se você não quiser pular do ninho agora. Você nunca esteve preparado, mas eu sei que você se esforçou. Eu só quero alguém que diga que eu preciso cortar o cabelo. Mas ninguém diz nada. Todo mundo só concorda comigo quando eu digo que o que passou, passou. Que a vida continua, que o meu maior sonho é ser um advogado quando o meu maior sonho é só que alguém entenda o que eu preciso ser. E que por favor, me explique. Alguém que me sirva de apoio e que diga ao mundo que eu não quero falar com ninguém. Que eu não gosto de celular, bebida, festa. Que eu tenho vergonha de existir. Que eu sou só um menino ateu, sem graça, sem casa, com direito ao Bolsa-Tristeza que foi deixado na porta de uma felicidade instantânea. Alguém que explique que não gosto de falar porque simplesmente gosto de escrever. Alguém que seja para mim o simples prazer de ser alguém que não foi embora. Ainda. Alguém que não queira escutar a minha voz. Alguém que explique ao resto das pessoas que sou uma pessoa feita de restos e que choro por pouca coisa. Choro, por exemplo, pelo sorriso de um homem mudo. Que gosto de chocolate quente antes de dormir, que acho que a saudade tem os mais belos olhos do mundo. Quero alguém que beba o oceano de canudo para que eu não tenha mais medo de gigantes. Alguém que me leve para chorar num mundo distante, porque não há mais cantos nesse mundo onde eu esteja abandonado o suficiente para ser o que eu sempre fui. Não há dor maior que se acumule no meu coração e faça aquela saudade poder ser transbordada até a última gota. Não há saudade maior do que a saudade que eu sinto dos olhos de saudade. Queria mais fios, mais sangue, mais sentimento de culpa, mais ressentimento, mais despedidas para que respire aliviado novamente. Para que eu consiga dormir uma noite sem lágrimas. Esse mundo perfeito dói. Esse mundo de mentira que não é de mentira dói profundamente. Eu queria ter forças para sugar a última gota de chocolate que sobrou na minha caneca azul preferida. Meu Deus, quando foi que eu perdi as minhas cores? Quando foi que meus textos encheram-se de interrogações? Aliás, quando é que eu comecei a escrever? Quando foi mesmo que eu comecei a ser feliz? Eu, honestamente, tenho muita coisa pra lembrar. Tenho que lembrar que sou perfeito, que sou só passado, que os exames de cardiologia deram em nada de novo. Eu sou um menino de muita sorte. Tenho que lembrar que sou um menino de muita sorte. Que não tenho motivos para ser o que sou. Triste, vazio, perdido. Mas quando a noite acaba, meu bem, quando a noite acaba e as quatro paredes do quarto adormecem, eu sempre acabo assim. Sozinho.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Que o medo de cair seja não mais que a prudência de não saber voar. Que a presença dos pesadelos transforme-se na insônia feliz e permanente. Sabe-se lá a vida que tem, mas que a vida só tenha o que saiba. Que o aprendiz seja eterno, aprendendo a brincar em parques enferrujados dentro de uma tristeza desproporcional como um bolo e seu excesso de fermento. Que a inteligência não cale meu jogo de estupidez. Que a paixão desenfreada seja um carro em rua retilínea e eterna. Os postes e acidentes cansam a lataria que ajeita-se na oficina mais cara. Que o peso de papel não seja as lembranças que pesam a minha poesia. Que o racionamento mate a minha fome. Que as horas passem, mas que o passado volte, ainda que não seja presente. Que eu aprenda a amar antes de aprender a rezar. Que a renúncia não seja mais que uma curva na esperança de um novo dia. Que as janelas destruam-se e o céu seja inteiro pela primeira vez. Que o aniversário aconteça todos os dias, mas que o crescimento caiba na palma do meu tempo. Que a preguiça não esteja sempre a disposição da morte. Que as ruínas sejam a metamorfose e a saudade seja esqueleto de museu. Que a dor seja suportável e nunca transbordável, que a vergonha de chorar seja somente a vergonha de me sentir sozinho. E que eu chore, para que a solidão caracterizada de mim veja que lágrima é água e água de adapta em todo corpo físico. Que o sorriso seja a pintura do espelho todas as manhãs. Que a abolição do sofrimento aconteça em breve, porque sofrimentos também cansam de serem escravizados. Que o dia seja noite, mas que a noite seja sempre noite. Que o sentimento seja transformando em máquina, mas que seja a máquina que anda com as próprias pernas e morre sem o próprio coração. Que a raiva construa e que o ódio fortaleça, porque tudo o que amo eu já detestei um dia. Que o vinho do sangue alheio mate a minha sede, quando a adega da fidelidade da solidão secar. Que eu consiga separar o lixo, mas que eu desaprenda a reciclar. Que a minha alegria não seja fútil e teimosa, mas que também saiba ceder espaço para quando a câimbra da convivência com ela chegar. Que o tempo todo seja tempo demais para qualquer coisa. Que dos chuveiros desçam o perdão e que minha alma seja lavada, mas jamais renovada. Experiências já são bloqueios naturais para vermes e venenos. Que a vontade de morrer seja a vontade de virar estrela. Que a infinitude da busca seja a recompensa dos pés cansados de procurar um novo caminho. Que eu possa recomeçar sem nunca ter chegado ao fim da linha. Que tenha um pote de arco-íris no fim do ouro. Que a felicidade da vida seja momentânea e rara, mas também encontrada em todo lugar.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Refúgio - Parte IV

      Recordo-me de como o céu acinzentou-se como grafite molhado gasto em papel. Embora para onde, embora por que? A boca salivava mais do que mil cachoeiras, mas o gosto amargo do palito ameaçava descer pelos olhos, formando lágrimas que soariam muito estranho numa ocasião avulsa como aquela. Papai olhou-me atravessado, com um tom de preocupação encoberto pela meia pálpebra, mas Srta. Laninha garantiu que o pequeno surto era decorrente da fadiga.
      Fadiga... Ora, bolas. Fadigada eram as fuças de Srta. Laninha. Quanta hipocrisia, pensava eu. Quanto charme para botar-me um trambolho esquisito no peito, receitar-me umas bruxarias quaisquer e tirar minha pequena Eleonora. Ah, debati-me! Debati-me feito um porco de açougue que descobre o fim do corredor. A cólera arrastava meu sangue para as paredes das veias, as sobrancelhas lutavam para unir-se tamanha era a força com que eu as contraía. E contraí-me todo, para o desespero de papai e Srta. Laninha que tentavam ao menos conter meus impulsos nervosos, ou manter-me consciente. Gonçalves, que até então se manteve próximo a Eleonora, imóvel e mudo feito uma planta parasita, sugando toda aquela cena bizarra, meteu-se a falar antes da língua.
      - Isso não passa de fricote. É um "fricotoso"!
      De fato, era. E como meu melhor amigo, apenas Gonçalves percebera. Não passava realmente de um reles chilique, um breve transtorno que, mesmo que inconscientemente, desejava eu ser forte o suficiente para convencer a santa Srta. Laninha que eu passava por maus bocados, que sua presença era mais que preciosa água benta, mais que qualquer repouso.
      - Aquiete-se, Gonçalves. O menino está doente. - ralhou papai. Coçando a cabeça, continuou. - Perdoe-me a intromissão, moça, mas a senhora vai embora por que? Tanta gente por aí precisando de um remédio, um cafuné de mãos formadas e sabidas... Ou estou enganado?
      - De maneira alguma. Sempre há um pobre diabo que necessita de ajuda médica. Os olhos do Governo mal pousam sobre as famílias de interior. Acham que não são gente, sabe? Coisa horrível. E até as pessoas que dizem serem anjos da vida, os doutores e enfermeiros, falo dos mais chulos mesmo, aqueles que se formam só com a misericórdia de Deus, nem esses querem treinar a profissão amenizando a dor alheia, por ser dor miserável e mal remunerada. Querem ser gente graúda, curar dor de unha dos granfinos. Eu e minha menina viemos pra cá por necessidade, mas não pude deixar de reconhecer o estrago da saúde pública. Mas o motivo que me fez decidir voltar para a inquietude da cidade é outro, seu menino. É pela menina, aquela que meu bom e finado marido deixou como prova de vínculo eterno, entende? Cria minha tem que estudar... Virar doutora, ser tudo o que mamãe não pôde deixar eu ser, pois fique o senhor sabendo que enfermeira eu sou por falta de estudo. Enfermeiro é pouco valorizado, seu menino. É pouco mesmo... Povo só lembra de médico e pra ser médico tem que estudar. Tem que estudar!
      - Mas a senhora nem precisava se afastar, Srta. Laninha. Aqui nas regiões há muitas escolas. A senhorita não matriculou sua menina por lá ainda? Lá na sala de Emílio sempre tem umas vaguinhas de criança que morre ou que viaja pro centro.
      - Não, não... Escola de alto nível, eu falo. Venho juntando um dinheiro... E Eleonora já está em idade de me render os esforços que fiz. Orgulho de mãe paga investimento de uma vida toda. Lembro da minha, no dia da minha formatura. Comeu o pão que o diabo amassou, fez das tripas coração, pra chorar uma bagatela na minha, ou melhor dizendo, nossa grande noite, eu com anel de grau nos dedos e ela com o coração miudinho de felicidade. Esse orgulho eu não morro sem ter.
      Papai olhou transviado para a moça que nem mais olhava para ele, nem sequer de relance, de tanta imagem da menina Eleonora em cima do palanque, com bata azul e chapéu de formanda, recheando-lhe a cabeça. Quase se sentiu ofendido quanto ao desprezo das escolas da região, mas era homem de pacificar as palavras dos outros, fazia das indelicadezas mais graves uma diminuta distração do orador. E além do mais, ele bem sabia que eu mal sabia soletrar uma palavra com mais de dez letras. Não me dava mais por pura falta de condição.
      Eleonora escutava tudo calada, e calada ficou durante toda a prosa, enquanto eu me rendia ao sabor de escutar uma conversa de adulto. Ignoravam o "fricotoso" enfermo por alguns segundos, ao menos. Os dois mantinham a discussão forte e viva, com argumentos e histórias de velhota em ponta de calçada. Papai contava da vida dura no roçado, de quando a mulher o largou. Srta. Laninha desdobrava todo o seu casamento feliz aos ouvidos do roceiro, desde o namorico, passando pelo nascimento da primeira filha que nasceu morta e da barriga vingada que lhe rendeu Eleonora, até chegar no triste fim do esposo e de como viera parar ali, vendendo o almoço para comprar a janta. Gonçalves naquela altura já desistira de permanecer em meio à fofoca. Não podia se demorar em casa dos outros, porque ficara de recuperação e a mãe era carrasca fervorosa. Para salvar-me da monotonia, apenas a angelical presença de Eleonora, muda como uma estátua e linda como uma Vênus mirim.
      Seria aquilo o amor? Eu não fazia ideia. Mas se fosse, amor era muito sem graça, pensava. Ficar parado ali, decorando as cores de olhos alheios, imaginando conversas, sofrendo com uma intragável separação breve. Vinte e quatro horas era tempo muito pequeno, não valia o esforço da felicidade. Eleonora estava ali, mas o não "estará mais" me remoeu de tristeza. A gente sofre por antecipação, e sofre com um gosto danado. Amor me deixava triste e febril, em cima de uma cama ouvindo histórias que pararam de me interessar quando Eleonora sumiu em meio a outras tragédias que não a minha. Minha primeira tragédia. A separação. Talvez esta seja a minha grande cruz. Eu sou lobo de comando, eu preciso de um bando, de uma companhia, de alguém que se movimente mais que uma peça de xadrez do meu amigo parcialmente cego que jura ter sido Napoleão Bonaparte. Amor me levaria ao asilo, mas nunca ao exílio de mim mesmo.
      Eleonora nem piscava o olho. Vez ou outra arrasta a cara na mão, em sinal de tédio profundo, bocejava e abria a boca mais vezes do que eu podia contar. Qualquer movimento dela era lindo. Os olhos de uma beleza infantil e perigosa, como faíscas soltando perto da água. Foi assim a minha primeira visão de Eleonora. Longe de Maria, longe da poesia, ela era só uma menina crescida em corpo de gente que nunca cresceu. Os futuros estavam traçados.
      - Bás Tardes, seu menino. É hora de ir. A enfermeira substituta virá amanhã mesmo. E não se preocupe, viu? Um pouco de repouso e o menino aí estará pronto pra outra.
      - Obrigado, dona Laninha. Vá em paz.
      Laninha pegou a mão da menina, que acordou de súbito do sono forçado, e partiu acompanhado de papai.
      Seria a última visão de Eleonora até o segundo pior momento da minha vida.

domingo, 30 de dezembro de 2012

O Sabor que Mata e Apressa - Karina Buhr



      Glutamato monossódico. Aquela coisa que tem no tempero do miojo e em um monte e comida expressa, porque a gente tem muita pressa, pra deixar os sabores mais aguçados. Sabor já aguça, existe pra aguçar, não pra ser aguçado. Antes, tinha guerra. Dizia-se especiarias. Brigava-se por tempero. Nossos ouvidos e olhos, além de nossa goela, receptora de hormônios de galinhas inchadas, recebem toneladas do tal aditivo. Senão, os apressados não são fisgados.
      A música precisa ser cada vez mais rápida e alta e só mais rápida e alta. Não pra acrescentar, mas pra trocar, exterminar outras formas. Os peitos cada vez mais inflados, caso pequenos sejam. Se forem grandes, o ideal é diminuí-los, pra depois inflá-los em métodos atuais. O videoclipe de quatro minutos é longo, a edição do filme tem que deixar o sujeito tonto. Não é pra acrescentar, é pra trocar, pra acompanhar a estabanação geral. O grande lance é nausear a criatura, pra emocioná-la.
      São Paulo contém glutamato. Aqui, até vereador glutamata. Ele abusa do tempero, ele não mata um, mata 36. O que é um, nos tempos de hoje? Cada vez menos com pausas, cada vez mais agonia, cada vez menos silencia. A campeã era a estação Sé, lá pelas 18h. Foi ultrapassada, coitada, por uma linha amarela. Saí do Butantã tranquila. Ia caminhando, pensando e o ônibus chegou chegando. Aquela lotação que a gente já conhece, mas achei todo mundo mais apressado naquele dia. Quando aconteceu um movimento de descida coletiva, fui junto. Não contrariaria o fluxo, eu estava tranquila. E fui levada, sem me esforçar, pra estação do metrô. Não precisava, mas ia ser bom pegar o metrô, chegaria mais... rápido.
      Ainda sem forças pra sair do fluxo, minha alegria era quando chegavam as escadas rolantes. Aí que eu respirava tanto! Mas elas acabam um dia. Cheguei onde queria e todos queriam também, na Avenida Paulista. Fiz todo o percurso sem prestar atenção em nada, sem olhar indicação de sentido, só deixei fluir e, pela primeira vez, isso tinha um sentido ruim. Cheguei ao meu destino antes da hora. E fiquei esperando meu namorado, olhando o povo apressado.
      Outro dia, fui assistir de novo a um filme de que gostei muito, O sétimo selo. Me deu uma coceira no braço, uma sede, achei o sofá duro. Não conseguia desligar do dia, aí me deu um sono, irreal pra mim naquele horário. Decepcionadíssima, levantei e fui dormir. Um desfecho medíocre na minha crise de abstinência monossódica. É um filme glutamato zero! É um filme força total, que bate na cara, mostrando que a gente talvez tenha perdido a capacidade de ser espectador que respira.
      Num ataque não habitual de otimismo, pensei que não! Um banho de mar pode resolver. Um banho de mar, com certeza, resolve. Só não sei quando vai dar, mas se tem algo que resolve, é um banho de mar.

Baiana, recifense, paulistana e universalista, Karina Buhr é cantora, compositora, percussionista e desenhista.

Texto intitulado "O Sabor que Mata e Apressa", originalmente postado na coluna da "Revista da Cultura", na edição de novembro de 2012.

Como Ser Feliz na Cidade de Feliz? - Fábricio Carpinejar

      Em Feliz, cidade de onze mil habitantes encravada no vale do Caí, os motoristas ainda lavam seus carros, as crianças ainda lavam seus cachorros, os estudantes ainda esperam o feijão brotar no algodão na escola, as faxineiras ainda passam óleo de peroba nos móveis, os filhos ainda ajudam a separar marinheiro do arroz, as famílias ainda emolduram fotos da primeira comunhão, os relógios ainda são regulados pelas badaladas da igreja, os homens ainda discutem se Deus existe bebendo cerveja.
      Ainda são feitos trotes, ainda se borda, ainda se forram gavetas com papel-presente, ainda se recebem visitas na sala de estar, ainda se descasca laranjas, ainda são feitas contas no papel, ainda há tempo para o leite ferver e o bolo descansar, ainda se conversa à toa na varanda, ainda se deixam o carro aberto e as roupas no varal. Não duvido que a lata de azeite ainda seja furada com um preguinho.
      É mais simples ser feliz na cidade de Feliz e nem estou falando do alto índice de alfabetização de 98%.
      São as delícias de coisas singelas. Como colher morangos.
      "Em maio, pelos cachinhos, sei que teremos uma safra boa e que não passaremos sufoco. É a minha maior felicidade, eu me sinto uma noiva", conta a agricultora Cátia Martins, 32.
      Ela veio do interior de Santa Rosa com o marido, Admir, pela tranquilidade. Não se arrepende. Pode realizar o sonho de quatro filhos em escadinha, como nas antigas famílias: Felipe (13), Pablo (9), Vinícius (6) e Júnior (4).
      Uma das paixões felizenses é andar a pé, passar pela Ponte de Ferro (trazida da Bélgica e instalada em 1900) e espiar como está o humor do Rio Caí. E também aprender um segundo idioma em casa. A dúvida é se a primeira língua é aportuguesa ou a alemã. Para não sofrer com o dilema, fala-se o dialeto Hunsrückisch, originado na região de Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, e abrasileirado no sul do país.
      A fala é rápida, a ponto de não se perceber diferença entre o nome e o sobrenome.
      - Qual é seu nome?
      - Talcilolorscheiter
      - IlsunStumm
      - Iracistumm
      "Nossa alegria é trabalhar demais para fazer bastante festa, ter uma hortinha para passar o tempo e um ser vizinho do outro. Aqui não falamos mal das pessoas, falamos a verdade", ri Talcilo, 49, que costuma frequentar a residência do casal amigo Ilsun e Iraci.
      Para Clarissa Herter, 17 anos, alegria é comemorar com um folhado de salamito. "É meu luxo", confessa, com o salgado recém embrulhado da Panificadora KS.
      Ela acabou de ser contratada para seu primeiro emprego na Hidroget, como analista, selecionada após um ano de curso.
      "Agora falta o primeiro namorado", completa.
      Ela se encabula para contar onde mora com a mãe, Marlise. Diz, baixinho: - Bananal.
      Ficar envergonhada é também um contentamento.
      Em Feliz, ainda é possível descobrir as espécies dos pássaros pelo canto.
      - Tesourinha? Siriri? João-de-barro?
      O músico Jair Silva, 41, o Jabá, vai antecipando os sons do alto das árvores para sua namorada Andrea Barbosa, 27.
      "Assim que ele me canta", ela brinca.
      O casal é feliz namorando toda manhã no Parque Municipal. São 25 hectares de sossego, chimarrão e concerto gratuito de aves.
      "Não existe como ser feliz sem o Parque", afirma Jair, lembrando que é o local das duas primeiras festas do município (Festa da Amora, Morango e Chantilly e Festival Nacional do Chope).
      "Não existe como ser feliz sem Jair", aproveita Andrea.
      Os dois se beijam longamente. Com aquela mansidão boa de branco de praça, de ruas vazias, de amor público.
      Perder tempo parece que é ganhar felicidade.

Crônica intitulada "Como Ser Feliz na Cidade de Feliz?" escrita por Fabrício Carpinejar no livro "Beleza Interior, lançado em novembro de 2012. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Sobre abandonos e sobre amor. Sobra arrependimento e sobra tristeza.


      Eu permaneço estático e inquieto. A mordaça do presente ganhara uma ambivalência cruel. Eu sou tudo e eu sou nada, eu sou grito e sou silêncio. Talvez o nosso passado seja mesmo essa camisa de força toda. Essa necessidade de ouvir o mar através das conchas e colchas, esse absurdo de criar raízes na lacunas dos teus olhos tão preenchidos de monomania. E do futuro, o que vai ser? A infertilidade do meu orgulho abortou toda a seiva que minha memória precisava para manter-te viva no meu peito.
      Os meus dedos doem e sangram em cinza monótono. Sangram num barulho de teclas infernal e superficial. Todos veem a beleza melancólica que do meu sangue brota, mas só tu sabes a sujeira abrigada embaixo das minhas unhas. Todo o medo de ser aquele que esquece, aquele que vê amor na despedida, o chão sem pegadas, o agrotóxico de uma plantação de perfume. Eu não nasci do teu ventre, mas tudo o que sou é teu fruto. Fruto apodrecido e sem açúcar, mas é teu. Toda essa enchurrada de pretéritos imperfeitos impregnados no meu calvário de ser pele solitária.
      Tudo é semente do teu seio, tudo é mapa sem recompensa. O que seria de mim, se o futuro estivesse aqui, quando não dou conta de nascer de mais de um passado? O triste conto da pedra amarrada no pé de um afogado. A água e o pão da vida não me serviriam mais se eu soubesse que, de novo, eu azedaria a felicidade como vinagre. Minha única chance de sobrevivência é ser essa espécie de aberração desmemoriada que não aceita vir ao mundo sem antes passar pelo teu colo. E por isso peço perdão pela situação horrenda em que te coloquei. Amei-te e dei-te a alegria do peito inchado, mas do coração que fertilizamos juntos, nasceu a tristeza que anda, fala, e te abandona.
      Novamente, ambivalência. Eu jurei que daria a vida por você, mas neguei morrer quando o punhal acertou minha consciência, porque minha vida não era e nunca foi o entra e sai de ar nos pulmões e a carne livre de vermes. A minha vida, desde que você me gerou, sempre foi amor. E foi tudo o que pude te oferecer, achando que o fim do amor era a eternidade de dois esqueletos no mesmo caixão. Erro meu. A minha vida sempre foi amor, e eu te dei amor até que o amor em si se esgotasse, mas o esgotamento do amor é saudade. E o resultado é que sou filho do adeus que recusou-se a morrer em teu nome.
      Todo esse arrependimento é claro como Clara é a minha dor. Eu apenas sinto a sua falta. Eu sinto falta daquela camisa de força. Eu sinto falta do futuro que nos foi negado e eu preferi esquecer.
Odeio essa ambivalência de você não estar aqui e eu continuar com o cordão umbilical impresso em tudo o que escrevo. Meu amor por você é toda essa sujeira embaixo das unhas que não escorre junto com o sangue dos meus dedos.